Discursos entregues por escrito na Câmara têm mais saudações que os falados e quase não dizem “eu”
Os textos publicados sem leitura no plenário abrem todos com “Senhor Presidente”; nas falas de tamanho parecido, o pronome “eu” é cerca de 20 vezes mais frequente.
Entre junho e setembro de 2026, a Câmara dos Deputados publicou 99 discursos de deputados em exercício que não foram proferidos no plenário. São textos que o deputado encaminha por escrito e que saem com a marca “sem registro taquigráfico”: os taquígrafos, servidores que anotam tudo o que se diz no plenário, não registraram fala.
A Câmara publica esses textos como discursos. Em 13 deles, todos de um mesmo deputado, o pedido vem por extenso: “nos termos do Regimento Interno, e dada a impossibilidade de leitura em plenário”, que o discurso “seja dado como lido”, isto é, que conte como se tivesse sido lido no plenário.
Para ver o que muda entre escrever e falar, o Aparte comparou os escritos com as Breves Comunicações, a fase de discursos das sessões extraordinárias da Câmara. São 396 dos 1.598 discursos falados no período. Em geral, têm o tamanho dos escritos: perto de 500 palavras.
As frases de costume
Os escritos usam mais as frases de costume da tribuna. Todos abrem com “Senhor Presidente”. Nas falas de Breves Comunicações, 40% abrem assim.
A saudação “Senhoras e Senhores Deputados”, ou uma variação dela, como “Senhores Deputados”, está em 89 escritos. Nas falas, em 21%. O fecho mais comum do papel é “Muito obrigado.”, em 69 textos.
Dizer que sobe, vem ou ocupa a tribuna também é mais comum no papel: está em 58 escritos. Nas falas, em 23%. Parte vem de dois deputados; sem eles, a marca aparece em 34% dos escritos.
- Abre com “Senhor Presidente”100%40%
- Saúda os deputados96%40%
- “Senhoras e Senhores Deputados” e variações90%21%
- Diz que sobe, vem ou ocupa a tribuna59%23%
- Fecha com “Muito obrigado”70%52%
- Pede para ir ao ar no rádio (A Voz do Brasil)36%24%
- “Era o que (eu) tinha a dizer”31%0,3%
Fonte: Câmara dos Deputados, dados abertos, discursos de deputados em exercício de 1º/6 a 14/9/2026, conferidos com a lista oficial de discursos.
Ver dados
| Marca | Escritos | Breves Comunicações | Escritos (de 99) | Breves Comunicações (de 396) | Todos os 1.598 falados | Autores dos escritos com a marca |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Abre com “Senhor Presidente” | 100% | 40% | 99 | 160 | 34% | 13 de 13 |
| Saúda os deputados | 96% | 40% | 95 | 159 | 19% | 13 de 13 |
| “Senhoras e Senhores Deputados” e variações | 90% | 21% | 89 | 85 | 10% | 11 de 13 |
| Diz que sobe, vem ou ocupa a tribuna | 59% | 23% | 58 | 92 | 8% | 11 de 13 |
| Fecha com “Muito obrigado” | 70% | 52% | 69 | 206 | 39% | 12 de 13 |
| Pede para ir ao ar no rádio (A Voz do Brasil) | 36% | 24% | 36 | 97 | 8% | 4 de 13 |
| “Era o que (eu) tinha a dizer” | 31% | 0,3% | 31 | 1 | 0,2% | 3 de 13 |
O “eu” que some
O que some no papel são as palavras da conversa. Nas falas, o pronome “eu” é cerca de 20 vezes mais frequente do que nos escritos. “Nós”, “aqui” e “gente” seguem o mesmo caminho.
A primeira pessoa não desaparece: muda de lugar e fica nos verbos de protocolo. “Solicito” é 26 vezes mais frequente no escrito. Entram também substantivos abstratos, como “capacidade”, “futuro” e “desenvolvimento”, de 4 a 7 vezes mais frequentes no papel.
- gente22,2×
- eu20,7×
- temos13,2×
- deputado10,9×
- nós10,7×
- quero8,0×
- vai7,7×
- aqui7,3×
- solicito25,8×
- institucional9,7×
- capacidade6,8×
- futuro5,8×
- compromisso5,0×
- investimentos4,7×
- desenvolvimento4,0×
- social4,0×
Fonte: Câmara dos Deputados, dados abertos, discursos de deputados em exercício de 1º/6 a 14/9/2026, conferidos com a lista oficial de discursos. Entram palavras com 15 ocorrências ou mais, usadas por 3 autores ou mais nos escritos, que separam os grupos também contra todos os falados e contra os falados longos.
Ver dados
| Grupo | Palavra | Vezes mais frequente |
|---|---|---|
| Mais na fala | gente | 22,2 |
| Mais na fala | eu | 20,7 |
| Mais na fala | temos | 13,2 |
| Mais na fala | deputado | 10,9 |
| Mais na fala | nós | 10,7 |
| Mais na fala | quero | 8,0 |
| Mais na fala | vai | 7,7 |
| Mais na fala | aqui | 7,3 |
| Mais no escrito | solicito | 25,8 |
| Mais no escrito | institucional | 9,7 |
| Mais no escrito | capacidade | 6,8 |
| Mais no escrito | futuro | 5,8 |
| Mais no escrito | compromisso | 5,0 |
| Mais no escrito | investimentos | 4,7 |
| Mais no escrito | desenvolvimento | 4,0 |
| Mais no escrito | social | 4,0 |
As frases do escrito são mais longas. A frase típica tem 21 palavras; na fala, 17. A diferença aparece com força em 6 dos 13 autores.
Marcas de poucos
Algumas marcas são de poucos autores. A frase “Era o que tinha a dizer” aparece em 31 escritos, de 3 deputados. Nos 1.598 discursos falados, aparece em 1, e em mais 2 com “eu”: “Era o que eu tinha a dizer”.
Pedir que o discurso seja divulgado em A Voz do Brasil, o programa oficial que as emissoras de rádio são obrigadas a retransmitir nos dias úteis, quase não separa os grupos. O pedido está em 36 escritos. Nas falas, em 24%. Sem os dois deputados que mais escreveram, a diferença quase some.
Nem todo texto escrito foi feito para o plenário: 13 se dirigem a uma sessão solene, a um seminário ou a uma homenagem, 11 deles de Laura Carneiro (PSD-RJ). Num deles, de 3 de junho: “Estamos reunidos nesta sessão para registrar e reverenciar um marco extraordinário”.
Quem escreve
Os 99 textos são de 13 deputados de 6 partidos. Três deles, Ricardo Ayres (Republicanos-TO), Roberto Duarte (Republicanos-AC) e Laura Carneiro (PSD-RJ), somam mais da metade.
A conta não diz por que cada um preferiu encaminhar o texto.
Ver dados
| Deputado | Partido-UF | Textos escritos |
|---|---|---|
| Ricardo Ayres | Republicanos-TO | 19 |
| Roberto Duarte | Republicanos-AC | 18 |
| Laura Carneiro | PSD-RJ | 17 |
| Capitão Alberto Neto | PL-AM | 13 |
| Rubens Pereira Júnior | PT-MA | 13 |
| Luiz Lima | Novo-RJ | 7 |
| Vander Loubet | PT-MS | 3 |
| Guilherme Uchoa | PSD-PE | 2 |
| Rubens Otoni | PT-GO | 2 |
| Vinicius Carvalho | PL-SP | 2 |
| Beto Preto | PSD-PR | 1 |
| Dr. Luiz Ovando | PP-MS | 1 |
| Lêda Borges | Republicanos-GO | 1 |
Fonte: Câmara dos Deputados, dados abertos, discursos de deputados em exercício de 1º/6 a 14/9/2026, conferidos com a lista oficial de discursos.
Como fizemos
Consultamos os dados abertos da Câmara (o serviço em que a Câmara publica seus dados para programas, a API) em 13 de outubro de 2026, pedindo os discursos de cada deputado em exercício desde 1º de junho. O mais recente publicado era de 14 de setembro. A API repete 23 discursos sob o nome de deputados homônimos: ficou uma cópia, a do deputado que o cabeçalho do texto nomeia. E deixou de entregar 27, que só vieram numa segunda consulta, pedindo menos dias de cada vez; a página oficial de cada um tem o mesmo texto. Os 1.697 discursos da conta estão todos na lista oficial de discursos da Câmara.
É escrito o discurso cuja transcrição começa por “DISCURSO NA ÍNTEGRA ENCAMINHADO” e traz “SEM REGISTRO TAQUIGRÁFICO”; falado é todo o resto.
A comparação principal é com as 396 falas de Breves Comunicações: metade dos escritos tem até 504 palavras; metade dessas falas, até 489. Também comparamos com todos os 1.598 falados, em que metade são pedidos curtos de “pela ordem”, e com 587 falas de cinco tipos de discurso (Breves Comunicações, Como Líder, Discussão, Homenagem e Outros). Uma marca só entra no texto se aparece numa fatia dos escritos pelo menos 15 pontos maior que nas falas (por exemplo, 55% contra 40%) nas três comparações, e se a diferença continua de 10 pontos ou mais sem os dois deputados com mais textos.
Cada marca foi procurada por programa, com a mesma regra nos dois grupos. “Sr.” e “Senhor” contam igual: o taquígrafo abrevia, e o texto escrito costuma vir por extenso.
Palavras: frequência por mil palavras de cada grupo, com todas as palavras na conta. Em cada uma das três comparações, listamos as 25 palavras que mais separam os grupos (por uma medida estatística da diferença de frequência), entre as que aparecem 15 vezes ou mais. Ficam as que entram nas três listas; do lado dos escritos, a palavra precisa vir de 5 autores ou mais, sem nenhum com mais da metade das ocorrências. Tiramos as palavras gramaticais (artigos, preposições) e mostramos as 8 de maior diferença em cada lado. Frase é o trecho até o ponto final, de exclamação ou de interrogação.
O que este número não diz
A conta não diz por que cada deputado encaminhou o texto por escrito, nem se ele foi lido em outro lugar: 13 textos se dirigem a uma sessão solene, a um seminário ou a uma homenagem. Com 13 autores, parte das marcas é de poucos; o número de autores de cada uma está na tabela do primeiro gráfico. Falado é o discurso de plenário que a Câmara registra; comissões ficam de fora. Partido e estado são os de hoje.
Fontes
- Câmara dos Deputados — API de dados abertos, discursos por deputado
- Câmara dos Deputados — API de dados abertos, deputados (partido e estado)
- Câmara dos Deputados — Ordem de Serviço nº 7/2022 da Diretoria-Executiva (as Breves Comunicações das sessões extraordinárias)
- Lei nº 4.117/1962, art. 38, alínea e (A Voz do Brasil)
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