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Uma seção do letramento.org

AparteO Congresso pelo que se diz na tribuna
Quarta-feira, 14 de outubro de 2026 · Edição nº 6
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Câmara · CrônicaCâmara

Na madrugada da dosimetria, uma frase parou no artigo

Na sessão de 9 de dezembro de 2025, que avançou pela madrugada do dia 10, a Câmara aprovou por 291 a 148 o texto que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro.

A sessão da Câmara dos Deputados aberta na noite de 9 de dezembro de 2025 atravessou a madrugada do dia 10 e teve 129 discursos depois da meia-noite. A votação do texto principal recebeu o último voto no painel eletrônico às 2h22, e o resultado foi lido logo depois: 291 votos a 148, com 1 abstenção. Estava aprovado o substitutivo ao Projeto de Lei 2.162/2023, a chamada dosimetria (nome técnico do cálculo da pena), que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro. O substitutivo é o texto que o relator, Paulinho da Força (Solidariedade-SP), apresentou para ficar no lugar do original. Depois vieram as votações de trechos em separado e a do texto final, e a sessão terminou às 3h55.

As notas taquigráficas são o registro, palavra por palavra, do que se diz no plenário. As daquela madrugada guardam, às 2h24, entre o último voto e a leitura do resultado, uma frase sem fim. É do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG): “Então, o voto é ‘sim’. Vamos aprovar a...” Logo em seguida, entre parênteses, o registro anota duas coisas que não são fala de ninguém: (Desligamento do microfone.) e (Palmas.). Uma é palavra sem som; a outra, som sem palavra. Depois da meia-noite, o microfone foi desligado 14 vezes, com oradores dos dois lados. À 0h04, a frase de Maria do Rosário (PT-RS) tinha parado em “Mas é lamentável que...”

Na frase das 2h24, faltou o substantivo. O artigo era feminino. Às 23h32, o item tinha entrado nas notas com o resumo que o projeto trazia desde 2023: um texto “que concede anistia aos participantes das manifestações reivindicatórias de motivação política”. Às 23h52, o relator, Paulinho da Força, avisou da tribuna: “muitos chamam de projeto da anistia, mas eu prefiro chamar de projeto da pacificação nacional”. Pouco depois do microfone desligado das 2h24, o Presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), leu o resultado, e o que se aprovou veio no masculino: “APROVADO O SUBSTITUTIVO OFERECIDO PELO RELATOR.”

Depois da meia-noite, a palavra anistia aparece 124 vezes nas notas: 61 na fala de deputados de partidos que orientaram contra o texto, 60 na de partidos que orientaram a favor e 3 na da Mesa. À 1h04, Duda Salabert (PDT-MG): “O que está sendo votado, na verdade, é a anistia”. Às 3h40, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ): “não é a anistia que desejávamos, mas é o primeiro degrau”. A palavra era a mesma; o sentido, oposto. Dosimetria aparece 18 vezes, 10 delas na fala de quem defendia o texto. À 1h52, Coronel Meira (PL-PE): “A dosimetria é o mal menor, o passo possível.”

23h36

Houve naquela noite um orador que falou pelos dois lados e nunca teve o microfone desligado: o relógio. Às 23h36, Marcel van Hattem (NOVO-RS), a favor do texto, falou em minutos e segundos: “Não vou usar os 3 minutos, porque 1 minuto é suficiente tempo para dizer que cada 1 segundo que passa sem deliberarmos é 1 segundo a mais de vidas perdidas, Sr. Presidente, de pessoas sofrendo.” Lindbergh Farias (PT-RJ), contra, falou em horas: “O senhor está colocando em votação um tema de extrema importância às 11h38min da noite […]. Pelo menos tenham coragem de votar de dia, à luz do sol.” Um pedia pressa; o outro, o dia.

À 1h52, Coronel Meira cumprimentou o plenário: “Boa noite, Brasil. Boa noite, Sr. Presidente. Aliás, já é bom dia!” Às 2h00, Alencar Santana (PT-SP) disse: “Agora, são 2 horas da manhã.” Nas notas, pressa não aparece nenhuma vez antes da meia-noite; depois, 6, todas na fala de quem defendia o texto. Madrugada aparece 1 vez antes e 11 depois, sempre na fala de quem se opunha. Para um lado, era tarde demais para esperar; para o outro, tarde demais para votar.

3h08

Aprovado o texto principal, vieram os destaques, as votações de trechos em separado. A partir da votação das 3h08, o governo e os partidos contrários ao texto entraram em obstrução: seus deputados registram no painel obstrução, e não voto, e ficam fora do total. Está e não está. Às 3h00, Lindbergh tinha avisado: “A gente vai esperar eles fazerem 257 votos. Não vão fazer.” 257 é a maioria absoluta dos 513 deputados; pela Constituição, uma votação só vale com ela presente. Nas três votações seguintes, às 3h08, 3h20 e 3h36, o sim ficou em 230, 229 e 231. Com os que votaram não ou se abstiveram, os totais foram 268, 258 e 257.

A última daquelas três votações foi a do artigo que reduz a pena de quem participou dos crimes em contexto de multidão sem financiar nem liderar; um destaque da federação do PT, PCdoB e PV queria tirá-lo do texto. Às 3h28, Duda Salabert perguntou: “Mas o que é multidão? Dez pessoas, vinte, mil, cinquenta?” E Marcel van Hattem defendeu o artigo: “nós estamos justamente cuidando daqueles que foram condenados por crimes tidos como multitudinários e que tiveram a pena agravada.” Às 3h36, o artigo ficou, por 231 a 23, com 3 abstenções. Somados, 257.

Às 3h40, Lindbergh voltou à conta: “eles demoraram muito para conseguir 257 votos.” Sóstenes Cavalcante respondeu: “Dez minutos.” A essa altura, até o relógio tinha dois lados.

3h48

O fim teve jeito de sala de espera. Às 3h48, com o painel da votação final aberto, o Presidente começou a falar: “Antes de encerrar esta votação — que é a redação final, falta apenas um Deputado votar —”. Na mesma fala: “A Casa está dividida; os ânimos, à flor da pele.” E, sobre o que se votava: “uma votação que desagrada, sim, à bancada do Governo, à Esquerda, mas que também não deixa a Direita 100% satisfeita.” A lista oficial põe também às 3h48 os 4 dos 129 discursos da madrugada que não passaram pelo microfone: foram entregues por escrito, sem registro na taquigrafia. Às 3h55, o registro anotou o próprio fim, também entre parênteses: (Encerra-se a sessão às 3 horas e 55 minutos.) A sessão seguinte ficou marcada para as 15h55 do mesmo dia.

E a frase das 2h24? No registro, continua parada no artigo. A Lei 15.402, que saiu dali e foi promulgada em maio de 2026 depois que o Congresso derrubou o veto presidencial, também não completa a frase: não diz anistia, não diz dosimetria, não diz 8 de janeiro. Diz multidão, uma vez, palavra que naquela sessão só apareceu depois da meia-noite. O substantivo que faltou, cada lado tinha o seu.

A noite em números

Discursos a cada 15 minutosSessão de 9 para 10 de dezembro de 2025, das 19h às 4h. O resultado da dosimetria saiu no quarto de hora das 2h15. Um discurso da madrugada não tem hora na lista oficial e fica fora do gráfico.

Fonte: Câmara dos Deputados, lista oficial de discursos de Plenário. A taquigrafia divide a sessão em trechos de 4 minutos; a hora de cada discurso é a do início do trecho em que ele começa.

Ver dados
Quarto de horaDiscursos
19h3
19h155
19h306
19h455
20h6
20h154
20h305
20h458
21h11
21h1510
21h3011
21h4510
22h8
22h153
22h304
22h454
23h3
23h1513
23h3010
23h451
0h4
0h156
0h3012
0h454
1h9
1h1513
1h304
1h454
2h5
2h155
2h309
2h4510
3h12
3h1512
3h3012
3h457
Quantos votaram em cada votação nominalTotal de votos (sim, não e abstenção) nas 19 votações nominais da noite, na ordem em que os placares foram anunciados.

Fonte: Câmara dos Deputados, votações nominais (dados abertos) e notas taquigráficas. A hora é a do anúncio do placar; o total não inclui quem estava em obstrução.

Ver dados
AnúncioVotaçãoSimNãoAbst.TotalEm obstrução
21h00Aprovado o Requerimento31111404250
21h12Aprovado o Substitutivo do Senado Federal ao Projeto de Lei nº 4.497, de 2024, ressalvados os destaques31011504250
21h24Mantido o texto28311603990
21h40Mantido o texto30212404260
21h52Mantido o texto29811704150
22h00Mantido o texto28610703930
22h08Mantido o texto29811204100
23h24Aprovado o Projeto de Lei Complementar nº 125, de 2022436204380
23h32Rejeitadas as Emendas de Plenário838203900
23h48Rejeitado o Requerimento14629404400
0h44Rejeitado o Requerimento14728704340
1h32Aprovado o Requerimento2711240395—
2h24Aprovado o Substitutivo ao Projeto de Lei nº 2.162, de 2023, adotado pelo relator da Comissão Especial, ressalvados os destaques29114814400
2h40Mantido o texto21813613550
2h52Mantido o texto20812103290
3h08Mantido o texto23034426855
3h20Mantido o texto22926325866
3h36Mantido o texto231233257—
3h52Aprovada a Redação Final assinada pelo relator, Dep. Paulinho da Força (SOLIDARIEDADE/SP)23525326361
Como cada partido votou o texto principalVotos sim e não por partido na votação aberta à 1h36, com o último voto às 2h22 do dia 10. Placar: 291 a 148, com 1 abstenção.
SimNão

Fonte: Câmara dos Deputados, votos da votação nominal 2358548-89 (dados abertos).

Ver dados
PartidoSimNãoAbstenção
PL7510
PT0650
UNIÃO4740
PP3920
PSD24121
REPUBLICANOS3220
MDB2550
PODE1410
PDT1130
PSB1120
PSOL0120
PSDB1020
PCdoB090
AVANTE610
SOLIDARIEDADE410
PRD500
NOVO500
CIDADANIA300
REDE030
PV030

Orientaram “sim”: bloco AVANTE/SOLIDARIEDADE/PRD, bloco UNIÃO/PP/PSD/REPUBLICANOS/MDB/Federação PSDB CIDADANIA/PODE, Minoria, NOVO, Oposição, PL. Orientaram “não”: federação PSOL-REDE, federação PT-PCdoB-PV, Governo, Maioria, PDT, PSB. Bloco e federação são grupos de partidos que atuam juntos; Maioria e Minoria são lideranças formais da Câmara, não contagens de votos. Fonte: orientação de bancadas registrada na votação.

As palavras da noiteQuantas vezes cada palavra aparece nas notas taquigráficas da sessão e no texto da Lei 15.402, que saiu do projeto.
PalavraDas 19h04 à meia-noiteDa meia-noite às 3h56Na lei
anistia581240
dosimetria15180
madrugada1110
pressa060
multidão0101

Conta exata da palavra, sem plural nem derivadas, nos 134 quartos de 4 minutos das notas taquigráficas (Escriba, Câmara dos Deputados) e no texto da lei publicado pelo Planalto. Inclui textos da pauta transcritos nas notas, como a ementa do projeto.

Depois da madrugada
  1. 26/4/2023O Projeto de Lei 2.162/2023 é apresentado por Marcelo Crivella (REPUBLICANOS-RJ) e outros, com este resumo oficial (a ementa): “Concede anistia aos participantes das manifestações reivindicatórias de motivação política ocorridas entre o dia 30 de outubro de 2022 e o dia de entrada em vigor desta Lei”.
  2. 10/12/2025Às 2h22, o último voto do texto principal: 291 a 148. Às 3h55, aprovada a redação final, a sessão é encerrada. No mesmo dia, o projeto segue para o Senado.
  3. 17/12/2025O Plenário do Senado aprova o projeto, que vai à sanção.
  4. 8/1/2026O presidente da República veta o projeto inteiro. Na mensagem de veto: “decidi vetar integralmente, por inconstitucionalidade e contrariedade ao interesse público”.
  5. 30/4/2026Sessão do Congresso derruba o veto: na Câmara, 318 votos pela derrubada e 144 pela manutenção; no Senado, 49 a 24. Um trecho fica de fora (os incisos IV a X do art. 112 da Lei de Execução Penal), porque a Lei 15.358, de 24 de março de 2026, já tinha tratado do assunto.
  6. 8/5/2026O presidente do Senado promulga a Lei 15.402. A lei não usa as palavras “anistia” nem “dosimetria”. Usa “multidão”: “Quando os crimes previstos neste Capítulo forem praticados em contexto de multidão, a pena será reduzida de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), desde que o agente não tenha praticado ato de financiamento ou exercido papel de liderança.”

Fontes: Câmara dos Deputados (tramitação do PL 2.162/2023), Senado Federal (PL 2.162/2023 e VET 3/2026), mensagem de veto nº 17/2026, Lei 15.402/2026 (Planalto).

Como fizemos

A crônica foi escrita a partir das notas taquigráficas oficiais da sessão (sistema Escriba da Câmara), lidas do começo ao fim, da lista oficial de discursos, das votações nominais com os votos de cada deputado e a orientação das bancadas, e da tramitação do projeto na Câmara e no Senado.

Cada trecho entre aspas foi conferido por programa, palavra por palavra, nas notas taquigráficas, dentro da fala de quem o texto diz que falou. Cortes dentro de uma citação aparecem como […]. As horas das falas são as do quarto de 4 minutos da taquigrafia em que a frase está.

A hora da votação principal é a do último voto da lista nominal (2h22); o resultado foi lido no trecho da taquigrafia que começa às 2h24. O sistema de votações da Câmara registra essa votação às 2h58: é a hora em que ela foi lançada no sistema, depois de três votações de destaques que vieram em seguida (duas nominais e uma simbólica). A matéria “A madrugada de 2025”, da edição nº 1, usou esse horário e foi corrigida.

Os 129 discursos depois da meia-noite são os da lista oficial da Câmara com data de 10 de dezembro: 125 falados no plenário e 4 entregues por escrito. Um deles, uma questão de ordem, está na lista só com a data, sem a hora; nas notas, fica no trecho que começa à 0h00.

As palavras foram contadas por programa nas notas (palavra exata, sem plural). Para dizer de que lado veio cada uma, usamos o partido do orador no cabeçalho das notas e a orientação do partido, ou do bloco a que ele pertence, na votação do texto principal.

O epílogo vem da ficha do projeto na Câmara e no Senado, da mensagem de veto e do texto da lei publicado pelo Planalto.

O que esta crônica não diz

A crônica não julga a lei nem diz quem tinha razão. As frases citadas são opiniões de quem estava na tribuna; o jornal não verifica cada afirmação feita ali. Ficaram de fora trechos que acusam pessoas de crimes. A contagem de palavras mostra o que foi dito, não com que intenção.

Fontes

  1. Câmara dos Deputados — notas taquigráficas da sessão deliberativa de 9 de dezembro de 2025 (Escriba)
  2. Câmara dos Deputados — lista oficial de discursos de Plenário de 9 e 10 de dezembro de 2025
  3. Câmara dos Deputados — vídeo da sessão
  4. Câmara dos Deputados — votações do Plenário de 9 e 10 de dezembro de 2025
  5. Câmara dos Deputados — votos da votação do texto principal
  6. Câmara dos Deputados — ficha de tramitação do PL 2.162/2023
  7. Senado Federal — veto nº 3/2026 (ficha e votação)
  8. Presidência da República — mensagem de veto nº 17/2026
  9. Planalto — Lei nº 15.402, de 8 de maio de 2026
  10. Constituição Federal, art. 47 (deliberação com a maioria absoluta presente)

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