Na madrugada da dosimetria, uma frase parou no artigo
Na sessão de 9 de dezembro de 2025, que avançou pela madrugada do dia 10, a Câmara aprovou por 291 a 148 o texto que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro.
A sessão da Câmara dos Deputados aberta na noite de 9 de dezembro de 2025 atravessou a madrugada do dia 10 e teve 129 discursos depois da meia-noite. A votação do texto principal recebeu o último voto no painel eletrônico às 2h22, e o resultado foi lido logo depois: 291 votos a 148, com 1 abstenção. Estava aprovado o substitutivo ao Projeto de Lei 2.162/2023, a chamada dosimetria (nome técnico do cálculo da pena), que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro. O substitutivo é o texto que o relator, Paulinho da Força (Solidariedade-SP), apresentou para ficar no lugar do original. Depois vieram as votações de trechos em separado e a do texto final, e a sessão terminou às 3h55.
As notas taquigráficas são o registro, palavra por palavra, do que se diz no plenário. As daquela madrugada guardam, às 2h24, entre o último voto e a leitura do resultado, uma frase sem fim. É do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG): “Então, o voto é ‘sim’. Vamos aprovar a...” Logo em seguida, entre parênteses, o registro anota duas coisas que não são fala de ninguém: (Desligamento do microfone.) e (Palmas.). Uma é palavra sem som; a outra, som sem palavra. Depois da meia-noite, o microfone foi desligado 14 vezes, com oradores dos dois lados. À 0h04, a frase de Maria do Rosário (PT-RS) tinha parado em “Mas é lamentável que...”
Na frase das 2h24, faltou o substantivo. O artigo era feminino. Às 23h32, o item tinha entrado nas notas com o resumo que o projeto trazia desde 2023: um texto “que concede anistia aos participantes das manifestações reivindicatórias de motivação política”. Às 23h52, o relator, Paulinho da Força, avisou da tribuna: “muitos chamam de projeto da anistia, mas eu prefiro chamar de projeto da pacificação nacional”. Pouco depois do microfone desligado das 2h24, o Presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), leu o resultado, e o que se aprovou veio no masculino: “APROVADO O SUBSTITUTIVO OFERECIDO PELO RELATOR.”
Depois da meia-noite, a palavra anistia aparece 124 vezes nas notas: 61 na fala de deputados de partidos que orientaram contra o texto, 60 na de partidos que orientaram a favor e 3 na da Mesa. À 1h04, Duda Salabert (PDT-MG): “O que está sendo votado, na verdade, é a anistia”. Às 3h40, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ): “não é a anistia que desejávamos, mas é o primeiro degrau”. A palavra era a mesma; o sentido, oposto. Dosimetria aparece 18 vezes, 10 delas na fala de quem defendia o texto. À 1h52, Coronel Meira (PL-PE): “A dosimetria é o mal menor, o passo possível.”
23h36
Houve naquela noite um orador que falou pelos dois lados e nunca teve o microfone desligado: o relógio. Às 23h36, Marcel van Hattem (NOVO-RS), a favor do texto, falou em minutos e segundos: “Não vou usar os 3 minutos, porque 1 minuto é suficiente tempo para dizer que cada 1 segundo que passa sem deliberarmos é 1 segundo a mais de vidas perdidas, Sr. Presidente, de pessoas sofrendo.” Lindbergh Farias (PT-RJ), contra, falou em horas: “O senhor está colocando em votação um tema de extrema importância às 11h38min da noite […]. Pelo menos tenham coragem de votar de dia, à luz do sol.” Um pedia pressa; o outro, o dia.
À 1h52, Coronel Meira cumprimentou o plenário: “Boa noite, Brasil. Boa noite, Sr. Presidente. Aliás, já é bom dia!” Às 2h00, Alencar Santana (PT-SP) disse: “Agora, são 2 horas da manhã.” Nas notas, pressa não aparece nenhuma vez antes da meia-noite; depois, 6, todas na fala de quem defendia o texto. Madrugada aparece 1 vez antes e 11 depois, sempre na fala de quem se opunha. Para um lado, era tarde demais para esperar; para o outro, tarde demais para votar.
3h08
Aprovado o texto principal, vieram os destaques, as votações de trechos em separado. A partir da votação das 3h08, o governo e os partidos contrários ao texto entraram em obstrução: seus deputados registram no painel obstrução, e não voto, e ficam fora do total. Está e não está. Às 3h00, Lindbergh tinha avisado: “A gente vai esperar eles fazerem 257 votos. Não vão fazer.” 257 é a maioria absoluta dos 513 deputados; pela Constituição, uma votação só vale com ela presente. Nas três votações seguintes, às 3h08, 3h20 e 3h36, o sim ficou em 230, 229 e 231. Com os que votaram não ou se abstiveram, os totais foram 268, 258 e 257.
A última daquelas três votações foi a do artigo que reduz a pena de quem participou dos crimes em contexto de multidão sem financiar nem liderar; um destaque da federação do PT, PCdoB e PV queria tirá-lo do texto. Às 3h28, Duda Salabert perguntou: “Mas o que é multidão? Dez pessoas, vinte, mil, cinquenta?” E Marcel van Hattem defendeu o artigo: “nós estamos justamente cuidando daqueles que foram condenados por crimes tidos como multitudinários e que tiveram a pena agravada.” Às 3h36, o artigo ficou, por 231 a 23, com 3 abstenções. Somados, 257.
Às 3h40, Lindbergh voltou à conta: “eles demoraram muito para conseguir 257 votos.” Sóstenes Cavalcante respondeu: “Dez minutos.” A essa altura, até o relógio tinha dois lados.
3h48
O fim teve jeito de sala de espera. Às 3h48, com o painel da votação final aberto, o Presidente começou a falar: “Antes de encerrar esta votação — que é a redação final, falta apenas um Deputado votar —”. Na mesma fala: “A Casa está dividida; os ânimos, à flor da pele.” E, sobre o que se votava: “uma votação que desagrada, sim, à bancada do Governo, à Esquerda, mas que também não deixa a Direita 100% satisfeita.” A lista oficial põe também às 3h48 os 4 dos 129 discursos da madrugada que não passaram pelo microfone: foram entregues por escrito, sem registro na taquigrafia. Às 3h55, o registro anotou o próprio fim, também entre parênteses: (Encerra-se a sessão às 3 horas e 55 minutos.) A sessão seguinte ficou marcada para as 15h55 do mesmo dia.
E a frase das 2h24? No registro, continua parada no artigo. A Lei 15.402, que saiu dali e foi promulgada em maio de 2026 depois que o Congresso derrubou o veto presidencial, também não completa a frase: não diz anistia, não diz dosimetria, não diz 8 de janeiro. Diz multidão, uma vez, palavra que naquela sessão só apareceu depois da meia-noite. O substantivo que faltou, cada lado tinha o seu.
A noite em números
Fonte: Câmara dos Deputados, lista oficial de discursos de Plenário. A taquigrafia divide a sessão em trechos de 4 minutos; a hora de cada discurso é a do início do trecho em que ele começa.
Ver dados
| Quarto de hora | Discursos |
|---|---|
| 19h | 3 |
| 19h15 | 5 |
| 19h30 | 6 |
| 19h45 | 5 |
| 20h | 6 |
| 20h15 | 4 |
| 20h30 | 5 |
| 20h45 | 8 |
| 21h | 11 |
| 21h15 | 10 |
| 21h30 | 11 |
| 21h45 | 10 |
| 22h | 8 |
| 22h15 | 3 |
| 22h30 | 4 |
| 22h45 | 4 |
| 23h | 3 |
| 23h15 | 13 |
| 23h30 | 10 |
| 23h45 | 1 |
| 0h | 4 |
| 0h15 | 6 |
| 0h30 | 12 |
| 0h45 | 4 |
| 1h | 9 |
| 1h15 | 13 |
| 1h30 | 4 |
| 1h45 | 4 |
| 2h | 5 |
| 2h15 | 5 |
| 2h30 | 9 |
| 2h45 | 10 |
| 3h | 12 |
| 3h15 | 12 |
| 3h30 | 12 |
| 3h45 | 7 |
Fonte: Câmara dos Deputados, votações nominais (dados abertos) e notas taquigráficas. A hora é a do anúncio do placar; o total não inclui quem estava em obstrução.
Ver dados
| Anúncio | Votação | Sim | Não | Abst. | Total | Em obstrução |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 21h00 | Aprovado o Requerimento | 311 | 114 | 0 | 425 | 0 |
| 21h12 | Aprovado o Substitutivo do Senado Federal ao Projeto de Lei nº 4.497, de 2024, ressalvados os destaques | 310 | 115 | 0 | 425 | 0 |
| 21h24 | Mantido o texto | 283 | 116 | 0 | 399 | 0 |
| 21h40 | Mantido o texto | 302 | 124 | 0 | 426 | 0 |
| 21h52 | Mantido o texto | 298 | 117 | 0 | 415 | 0 |
| 22h00 | Mantido o texto | 286 | 107 | 0 | 393 | 0 |
| 22h08 | Mantido o texto | 298 | 112 | 0 | 410 | 0 |
| 23h24 | Aprovado o Projeto de Lei Complementar nº 125, de 2022 | 436 | 2 | 0 | 438 | 0 |
| 23h32 | Rejeitadas as Emendas de Plenário | 8 | 382 | 0 | 390 | 0 |
| 23h48 | Rejeitado o Requerimento | 146 | 294 | 0 | 440 | 0 |
| 0h44 | Rejeitado o Requerimento | 147 | 287 | 0 | 434 | 0 |
| 1h32 | Aprovado o Requerimento | 271 | 124 | 0 | 395 | — |
| 2h24 | Aprovado o Substitutivo ao Projeto de Lei nº 2.162, de 2023, adotado pelo relator da Comissão Especial, ressalvados os destaques | 291 | 148 | 1 | 440 | 0 |
| 2h40 | Mantido o texto | 218 | 136 | 1 | 355 | 0 |
| 2h52 | Mantido o texto | 208 | 121 | 0 | 329 | 0 |
| 3h08 | Mantido o texto | 230 | 34 | 4 | 268 | 55 |
| 3h20 | Mantido o texto | 229 | 26 | 3 | 258 | 66 |
| 3h36 | Mantido o texto | 231 | 23 | 3 | 257 | — |
| 3h52 | Aprovada a Redação Final assinada pelo relator, Dep. Paulinho da Força (SOLIDARIEDADE/SP) | 235 | 25 | 3 | 263 | 61 |
- PL75 · 1
- PT0 · 65
- UNIÃO47 · 4
- PP39 · 2
- PSD24 · 12
- REPUBLICANOS32 · 2
- MDB25 · 5
- PODE14 · 1
- PDT1 · 13
- PSB1 · 12
- PSOL0 · 12
- PSDB10 · 2
- PCdoB0 · 9
- AVANTE6 · 1
- SOLIDARIEDADE4 · 1
- PRD5 · 0
- NOVO5 · 0
- CIDADANIA3 · 0
- REDE0 · 3
- PV0 · 3
Fonte: Câmara dos Deputados, votos da votação nominal 2358548-89 (dados abertos).
Ver dados
| Partido | Sim | Não | Abstenção |
|---|---|---|---|
| PL | 75 | 1 | 0 |
| PT | 0 | 65 | 0 |
| UNIÃO | 47 | 4 | 0 |
| PP | 39 | 2 | 0 |
| PSD | 24 | 12 | 1 |
| REPUBLICANOS | 32 | 2 | 0 |
| MDB | 25 | 5 | 0 |
| PODE | 14 | 1 | 0 |
| PDT | 1 | 13 | 0 |
| PSB | 1 | 12 | 0 |
| PSOL | 0 | 12 | 0 |
| PSDB | 10 | 2 | 0 |
| PCdoB | 0 | 9 | 0 |
| AVANTE | 6 | 1 | 0 |
| SOLIDARIEDADE | 4 | 1 | 0 |
| PRD | 5 | 0 | 0 |
| NOVO | 5 | 0 | 0 |
| CIDADANIA | 3 | 0 | 0 |
| REDE | 0 | 3 | 0 |
| PV | 0 | 3 | 0 |
Orientaram “sim”: bloco AVANTE/SOLIDARIEDADE/PRD, bloco UNIÃO/PP/PSD/REPUBLICANOS/MDB/Federação PSDB CIDADANIA/PODE, Minoria, NOVO, Oposição, PL. Orientaram “não”: federação PSOL-REDE, federação PT-PCdoB-PV, Governo, Maioria, PDT, PSB. Bloco e federação são grupos de partidos que atuam juntos; Maioria e Minoria são lideranças formais da Câmara, não contagens de votos. Fonte: orientação de bancadas registrada na votação.
| Palavra | Das 19h04 à meia-noite | Da meia-noite às 3h56 | Na lei |
|---|---|---|---|
| anistia | 58 | 124 | 0 |
| dosimetria | 15 | 18 | 0 |
| madrugada | 1 | 11 | 0 |
| pressa | 0 | 6 | 0 |
| multidão | 0 | 10 | 1 |
Conta exata da palavra, sem plural nem derivadas, nos 134 quartos de 4 minutos das notas taquigráficas (Escriba, Câmara dos Deputados) e no texto da lei publicado pelo Planalto. Inclui textos da pauta transcritos nas notas, como a ementa do projeto.
- 26/4/2023O Projeto de Lei 2.162/2023 é apresentado por Marcelo Crivella (REPUBLICANOS-RJ) e outros, com este resumo oficial (a ementa): “Concede anistia aos participantes das manifestações reivindicatórias de motivação política ocorridas entre o dia 30 de outubro de 2022 e o dia de entrada em vigor desta Lei”.
- 10/12/2025Às 2h22, o último voto do texto principal: 291 a 148. Às 3h55, aprovada a redação final, a sessão é encerrada. No mesmo dia, o projeto segue para o Senado.
- 17/12/2025O Plenário do Senado aprova o projeto, que vai à sanção.
- 8/1/2026O presidente da República veta o projeto inteiro. Na mensagem de veto: “decidi vetar integralmente, por inconstitucionalidade e contrariedade ao interesse público”.
- 30/4/2026Sessão do Congresso derruba o veto: na Câmara, 318 votos pela derrubada e 144 pela manutenção; no Senado, 49 a 24. Um trecho fica de fora (os incisos IV a X do art. 112 da Lei de Execução Penal), porque a Lei 15.358, de 24 de março de 2026, já tinha tratado do assunto.
- 8/5/2026O presidente do Senado promulga a Lei 15.402. A lei não usa as palavras “anistia” nem “dosimetria”. Usa “multidão”: “Quando os crimes previstos neste Capítulo forem praticados em contexto de multidão, a pena será reduzida de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), desde que o agente não tenha praticado ato de financiamento ou exercido papel de liderança.”
Fontes: Câmara dos Deputados (tramitação do PL 2.162/2023), Senado Federal (PL 2.162/2023 e VET 3/2026), mensagem de veto nº 17/2026, Lei 15.402/2026 (Planalto).
Como fizemos
A crônica foi escrita a partir das notas taquigráficas oficiais da sessão (sistema Escriba da Câmara), lidas do começo ao fim, da lista oficial de discursos, das votações nominais com os votos de cada deputado e a orientação das bancadas, e da tramitação do projeto na Câmara e no Senado.
Cada trecho entre aspas foi conferido por programa, palavra por palavra, nas notas taquigráficas, dentro da fala de quem o texto diz que falou. Cortes dentro de uma citação aparecem como […]. As horas das falas são as do quarto de 4 minutos da taquigrafia em que a frase está.
A hora da votação principal é a do último voto da lista nominal (2h22); o resultado foi lido no trecho da taquigrafia que começa às 2h24. O sistema de votações da Câmara registra essa votação às 2h58: é a hora em que ela foi lançada no sistema, depois de três votações de destaques que vieram em seguida (duas nominais e uma simbólica). A matéria “A madrugada de 2025”, da edição nº 1, usou esse horário e foi corrigida.
Os 129 discursos depois da meia-noite são os da lista oficial da Câmara com data de 10 de dezembro: 125 falados no plenário e 4 entregues por escrito. Um deles, uma questão de ordem, está na lista só com a data, sem a hora; nas notas, fica no trecho que começa à 0h00.
As palavras foram contadas por programa nas notas (palavra exata, sem plural). Para dizer de que lado veio cada uma, usamos o partido do orador no cabeçalho das notas e a orientação do partido, ou do bloco a que ele pertence, na votação do texto principal.
O epílogo vem da ficha do projeto na Câmara e no Senado, da mensagem de veto e do texto da lei publicado pelo Planalto.
O que esta crônica não diz
A crônica não julga a lei nem diz quem tinha razão. As frases citadas são opiniões de quem estava na tribuna; o jornal não verifica cada afirmação feita ali. Ficaram de fora trechos que acusam pessoas de crimes. A contagem de palavras mostra o que foi dito, não com que intenção.
Fontes
- Câmara dos Deputados — notas taquigráficas da sessão deliberativa de 9 de dezembro de 2025 (Escriba)
- Câmara dos Deputados — lista oficial de discursos de Plenário de 9 e 10 de dezembro de 2025
- Câmara dos Deputados — vídeo da sessão
- Câmara dos Deputados — votações do Plenário de 9 e 10 de dezembro de 2025
- Câmara dos Deputados — votos da votação do texto principal
- Câmara dos Deputados — ficha de tramitação do PL 2.162/2023
- Senado Federal — veto nº 3/2026 (ficha e votação)
- Presidência da República — mensagem de veto nº 17/2026
- Planalto — Lei nº 15.402, de 8 de maio de 2026
- Constituição Federal, art. 47 (deliberação com a maioria absoluta presente)
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