Às 20h44, Odair Cunha anunciou que o governo liberava a base. Às 20h39, ele já tinha votado sim
Na noite de 16 de setembro de 2025, 12 deputados do PT votaram com o PL a favor da PEC 3/2021, que exigia licença da Câmara para processar deputados e que os críticos chamavam de PEC da Blindagem. Nove já tinham votado quando Odair Cunha anunciou, pela ordem, que o governo deixava os deputados da sua base livres para votar. Três deles: quem anunciou, quem votou a favor da PEC e contra o voto secreto, e quem trocou de voto na mesma noite.
Às 20h21 de 16 de setembro de 2025, uma terça-feira, a Câmara abriu a votação do primeiro turno da PEC 3/2021, que mudava as regras para processar e prender deputados e senadores. A ementa falava em “prerrogativas parlamentares”; os adversários a chamavam de PEC da Blindagem. Os primeiros votos entraram no painel às 20h37. Entre 20h37 e 20h42, nove deputados do PT registraram voto a favor. Odair Cunha (PT-MG), que renunciou ao mandato em 19 de maio de 2026, segundo o registro da Câmara, e não disputou a eleição, foi um deles, às 20h39.
Às 20h44, no mesmo bloco de quatro minutos da taquigrafia, dois deputados de Minas Gerais pediram a palavra pela ordem, um logo depois do outro. Primeiro, Nikolas Ferreira (PL-MG), que se reelegeu com quase seis vezes os votos do segundo mais votado de Minas: “A Esquerda diz que a Folha de S.Paulo está contra, o PT está contra, o PSOL está contra. Não precisa me convencer mais! Eu já vou votar a favor da matéria.” O voto dele estava registrado no painel desde as 20h40. Depois, Odair. A fala inteira dele, com a saudação e o “Obrigado”, tem 28 palavras: “o Governo compreende que esta é uma matéria interna corporis e se abstém da discussão. Por isso, libera a sua base.” Interna corporis, em latim, é o assunto que cabe só à própria Casa resolver. Os outros três do PT que votaram a favor registraram o voto entre 20h46 e 20h53.
A federação do PT com o PCdoB e o PV tinha orientado o voto contra. Às 17h24, da cadeira da Presidência, Hugo Motta (Republicanos-PB), que se reelegeu como o quinto mais votado da Paraíba, tinha avisado: “Esta não é uma pauta de Governo ou de Oposição. Esta não é uma pauta do PT ou do PL. Esta não é uma pauta da Direita ou da Esquerda.” O painel fechou às 21h04: 353 a 134. No PL, foram 83 votos a favor e nenhum contra. Do PT vieram 51 votos contra e 12 a favor.
O que se votava estava no artigo 53 da Constituição. Pelo texto que a Câmara mandou ao Senado no dia seguinte, deputados e senadores “não poderão ser presos, salvo em flagrante de crime inafiançável, nem processados criminalmente, sem prévia licença de sua Casa”, e a licença seria decidida “pelo voto secreto da maioria absoluta dos membros da Casa respectiva”. Outro artigo mandava julgar no Supremo, nas infrações penais comuns, também “os Presidentes Nacionais de partidos políticos com representação no Congresso Nacional”. Para Motta, o relatório era “o retorno ao texto constitucional de 1988”.
Odair votou a favor também no segundo turno, cujo painel fechou às 23h27, e no destaque que decidia se a palavra secreta ficava na licença para processar parlamentar. Esse painel fechou à 0h19, com 296 votos para mantê-la e 174 para tirá-la; não bastou, e a Câmara anotou “Suprimido o texto.” Na tarde seguinte, às 14h11, a emenda aglutinativa que pôs o voto secreto de volta na licença passou por 314 a 168, com o voto dele. Em 24 de fevereiro de 2021, quando a mesma PEC teve a admissibilidade aprovada, Odair também tinha votado a favor.
Na noite de 17 de setembro, às 22h28, ele voltou ao microfone pela ordem, agora contra a urgência do projeto da anistia: “é preciso deixar claro, objetivamente, que o Governo é contra, vota ‘não’ a este projeto de lei.” Acrescentou: “a paz é fruto da justiça.” Dos 18 discursos que Odair fez de agosto de 2025 até sair da Câmara, só o das 20h44 de 16 de setembro tratou da PEC.
Flávio Nogueira (PT-PI), que se reelegeu como o nono mais votado do Piauí, que tem dez cadeiras, tinha passado pela tribuna às 15h32 de 16 de setembro, para falar da saída do Brasil do Mapa da Fome e do ministro do Desenvolvimento Social, “do meu Piauí”. Fechou com um pedido: “Sr. Presidente, peço que este meu discurso seja publicado no programa A Voz do Brasil.” À noite, votou a favor nos dois turnos, o primeiro às 20h39. No destaque da palavra secreta e na emenda da tarde seguinte, votou contra: contra manter a palavra e contra a emenda que trouxe o voto secreto de volta. Os quatro deputados do PT do Piauí que votaram a favor da PEC votaram assim.
Airton Faleiro (PT-PA), que se reelegeu como o 16º mais votado do Pará, que tem 17 cadeiras, votou a favor no primeiro turno, às 20h38, e contra no segundo, na mesma noite. Entre um turno e outro, só três deputados da Câmara trocaram o voto a favor pelo voto contra: ele, Leonardo Monteiro (PT-MG), que se reelegeu como o 37º mais votado de Minas, e Daniela do Waguinho (União-RJ), que disputou a reeleição pelo Republicanos e ficou como suplente. Ninguém fez o caminho inverso. Em 2021, na admissibilidade, Airton tinha votado contra. Nenhum dos 33 discursos que ele fez desde agosto de 2025 trata do assunto. Paulo Guedes (PT-MG), que se reelegeu como o 11º mais votado de Minas, também tinha votado contra a admissibilidade em 2021; em 2025, votou a favor nas quatro votações do quadro abaixo.
Depois daquela noite, nenhum dos 12 falou do assunto na tribuna. Nos discursos dos 11 que estão no acervo da casa, de agosto de 2025 até a coleta mais recente, nenhum fala em blindagem, em prerrogativas ou em voto secreto. A PEC também não foi longe: em 24 de setembro, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou por 26 votos o parecer contrário, e a proposta foi arquivada no mesmo dia.
No painel daquela noite, a orientação do governo foi liberado. A da federação do PT, não. A do bloco do PL, do União, do PP, do PSD e de outros partidos, sim. No primeiro turno, doze deputados do PT votaram como o bloco do PL. Nove deles já tinham votado quando Odair pediu a palavra para liberar a base.
Ver dados
| Deputado (UF) | 2021 | 1º turno | 2º turno | Voto secreto | Aglutinativa | 2026 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Leonardo Monteiro (MG) | Não | Sim, às 20h50 | Não | Não | Não | reeleito |
| Odair Cunha (MG) | Sim | Sim, às 20h39 | Sim | Sim | Sim | renunciou em 2026; não disputou |
| Paulo Guedes (MG) | Não | Sim, às 20h53 | Sim | Sim | Sim | reeleito |
| Airton Faleiro (PA) | Não | Sim, às 20h38 | Não | Não | Não | reeleito |
| Dilvanda Faro (PA) | — | Sim, às 20h42 | Sim | Sim | Sim | reeleito |
| Dr. Francisco (PI) | — | Sim, às 20h39 | Sim | Não | Não | reeleito |
| Florentino Neto (PI) | — | Sim, às 20h39 | Sim | Não | Não | suplente |
| Flávio Nogueira (PI) | Sim | Sim, às 20h39 | Sim | Não | Não | reeleito |
| Merlong Solano (PI) | Não | Sim, às 20h38 | Sim | Não | Não | suplente |
| Alfredinho (SP) | — | Sim, às 20h46 | Sim | Sim | Sim | suplente |
| Jilmar Tatto (SP) | — | Sim, às 20h38 | Sim | Sim | Sim | reeleito |
| Kiko Celeguim (SP) | — | Sim, às 20h37 | Sim | Sim | Sim | reeleito |
Fonte: Câmara dos Deputados, API de votações (votos nominais da PEC 3/2021); TSE, resultado do 1º turno de 2026 e cadastro de candidatos.
Como fizemos
A crônica parte dos votos nominais da PEC 3/2021 na Câmara, baixados da API de dados abertos: a admissibilidade (24/02/2021), o primeiro turno (16/09/2025, 21h04), o segundo (23h27), o destaque sobre a palavra secreta na licença para processar parlamentar (17/09, 0h19) e a emenda aglutinativa (17/09, 14h11). O partido é o da data do voto, como a API registra. As orientações (governo liberado, federação do PT contra, bloco do PL, União, PP e PSD a favor) vêm da mesma API.
As falas são as da taquigrafia: a de Nikolas Ferreira das 20h44 está no acervo da casa; as de Odair Cunha (20h44 de 16/09 e 22h28 de 17/09), de Flávio Nogueira (15h32) e de Hugo Motta (17h24), na API de discursos da Câmara. Cada trecho entre aspas foi conferido por programa como parte do texto oficial e abre a página da fala no site da Câmara, com a frase destacada.
A letra da PEC é a do texto que a Câmara enviou ao Senado em 17/09/2025 (ofício 209/2025), no documento oficial do Senado. A informação de que a emenda aglutinativa pôs o voto secreto de volta na licença vem do texto da emenda (que volta a escrever “pelo voto secreto da maioria absoluta”) e do destaque que, à 0h19, tinha suprimido a palavra; o ofício ao Senado mostra o texto final.
O silêncio: procuramos blindagem, prerrogativas, PEC 3/2021, bandidagem e voto secreto em todos os discursos que os 11 deputados do acervo fizeram desde 1º de agosto de 2025, e nos 18 de Odair Cunha (fora do acervo) até a renúncia, que a Câmara registra em 19/05/2026. A CCJ do Senado e o arquivamento estão no registro oficial da tramitação no Senado.
A hora das falas (20h44) é a do início do bloco de quatro minutos da taquigrafia; o registro não traz o segundo exato de cada fala. Por isso a crônica a compara com a hora em que cada deputado registrou o voto no painel.
O aposto e o quadro de 2026 vêm do Tribunal Superior Eleitoral (arquivo final do 1º turno e cadastro de candidatos).
O que esta crônica não diz
Não diz por que cada deputado votou como votou: nenhum deles explicou o voto na tribuna, e o Aparte não procura os citados. Não liga o voto ao resultado da urna. Odair Cunha anunciou a liberação em nome do governo; a crônica não diz que ele falou pela bancada. O silêncio é o da tribuna da Câmara: o que cada um disse fora dela não está aqui.
Fontes
- Câmara dos Deputados — fala de Nikolas Ferreira (PL-MG), 16/09/2025, 20h44
- Câmara dos Deputados — fala de Odair Cunha (PT-MG), 16/09/2025, 20h44
- Câmara dos Deputados — fala do presidente Hugo Motta, 16/09/2025, 17h24
- Câmara dos Deputados — fala de Odair Cunha (PT-MG), 17/09/2025, 22h28
- Câmara dos Deputados — fala de Flávio Nogueira (PT-PI), 16/09/2025, 15h32
- Câmara dos Deputados — votos do 1º turno da PEC 3/2021 (API)
- Câmara dos Deputados — votos do 2º turno (API)
- Câmara dos Deputados — votação do destaque da palavra secreta, 0h19 de 17/09/2025 (API)
- Câmara dos Deputados — votos da emenda aglutinativa nº 1 (API)
- Câmara dos Deputados — votos da admissibilidade, 24/02/2021 (API)
- Senado Federal — texto da PEC 3/2021 enviado pela Câmara (17/09/2025)
- Senado Federal — tramitação da PEC 3/2021 (CCJ e arquivamento)
- Aparte — A PEC levou uma noite para passar na Câmara e oito dias para chegar ao arquivo do Senado
- TSE — votação por candidato, 1º turno de 2026 (arquivo final)
- TSE — cadastro de candidatos de 2026
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