Pular para o conteúdo

Uma seção do letramento.org

AparteO Congresso pelo que se diz na tribuna
Quarta-feira, 14 de outubro de 2026 · Edição nº 6
← Crônicas
Crônicas · CrônicaCâmara

A tarde em que a Mesa prometeu devolver o tempo aos dois lados

Na sessão da Câmara de 19 de fevereiro de 2025, um dia depois da denúncia da PGR contra Bolsonaro, dois líderes falaram, o plenário gritou e a presidente suspendeu os trabalhos às 18h42. Crônica de meia hora de tribuna.

Era uma quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025, e a sessão da Câmara dos Deputados tinha um relógio aceso no painel. Na véspera, a Procuradoria-Geral da República tinha denunciado o ex-presidente Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal. Às 18h12, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) subiu à tribuna com o tempo da liderança do partido, disse boa-noite e mostrou manchetes. Leu uma delas: “Bolsonaro aceitou matar Lula, diz PGR sem comprovar”. Depois fez perguntas, e o plenário respondeu. “Foi por dinheiro na cueca?” As notas taquigráficas, que guardam palavra por palavra o que se diz no plenário, anotam a resposta entre parênteses: (Manifestação no plenário: Não!). Cinco perguntas, cinco “Não!”.

Então Nikolas trocou a pergunta pela definição, e o plenário trocou de palavra. “Se tirar do vocabulário de vocês as palavras ‘golpe’ e ‘fascista’, vocês ficam mudos”, disse. E começou uma lista: golpe é isto, golpe é aquilo, treze frases. Depois de onze delas, o mesmo parêntese: (Manifestação no plenário: Golpe!). Uma das frases da lista foi esta: “Golpe é um vagabundo, mentiroso, ladrão que é Lula, condenado em três instâncias, ser Presidente da República!” É a fala de quem a disse; a seção não verifica cada afirmação feita da tribuna. Lula foi condenado em três instâncias no caso do tríplex; o Supremo anulou essas decisões em 2021, por incompetência do juízo. Nikolas fechou com três frases curtas: “Fora, Lula! Não adianta resmungar, nós vamos voltar. Aceitem que dói menos.”

Às 18h20, Lindbergh Farias (PT-RJ) tomou a tribuna, também pela liderança. Presidia a sessão a deputada Delegada Katarina (PSD-SE). A primeira frase dele foi para ela: “Sra. Presidente, eu vejo essa cena patética.” Ele vinha falar da delação do tenente-coronel Mauro Cid, tornada pública naquele dia, e das joias. A primeira frase da presidente foi um pedido: “Colegas, vamos fazer um pouco de silêncio, por favor.” O parêntese seguinte anota o que veio do plenário: “Mensaleiro! Mensaleiro!” E logo: “Assassino! Genocida!” O registro diz de onde veio o grito, o plenário, e não diz de quem.

A partir daí, a tarde passou a ser contada em minutos. Lindbergh: “Eu quero que o meu tempo seja garantido.” A presidente: “Ordem, minha gente! Vamos deixar o colega falar!” A presidente: “A sessão está suspensa.” Lindbergh: “Vocês não vão nos calar!” Pouco depois, no mesmo registro: “Pode continuar.” Ele não continuou: “Continuar não, Presidente. Eu quero que restitua o meu tempo”. Para ele, o tempo seguia correndo: “Está rodando o tempo há mais de 2 minutos.” Ela deu o que a Mesa tem para dar: “O tempo do senhor vai ser restituído.”

Ele falou então da denúncia, “quase 800 páginas”, e de um plano com nome, o Punhal Verde Amarelo, e disse ao outro lado: “Os senhores tramaram um golpe de Estado.” É a fala de quem a disse; na data, a denúncia tinha um dia e o Supremo ainda não a havia julgado. A palavra tinha atravessado o plenário: na fala das 18h12, golpe era o refrão da lista de Nikolas e a resposta anotada do plenário; na das 18h20, a acusação de Lindbergh. Foi aí que a presidente falou como quem lê uma regra: “Isto serve para os dois lados: todas as vezes em que um colega estiver usando a tribuna e for interrompido por essa falta de respeito, tanto de um lado como do outro, vou restituir o tempo.” À Secretaria da Mesa: “Restituam o tempo.” Mais adiante, ao plenário: “Temos toda a noite de hoje para trabalhar.”

A noite não veio. Vieram os coros, cada um anotado entre parênteses, sem dono: “Odebrecht! Odebrecht! Odebrecht!”, “Pede pra sair!”, “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão!”, “Golpistas! Golpistas! Golpistas!”, “Palocci! Palocci! Palocci!”, “Atibaia! Atibaia! Atibaia!”. Os coros citam processos de Lula; em 2021 o Supremo anulou as decisões da 13ª Vara de Curitiba nas ações do tríplex, de Atibaia e do Instituto Lula, por incompetência do juízo, e o Plenário confirmou. Entre um coro e outro, a taquigrafia repete uma frase que não tem voz: (A Sra. Presidente faz soar as campainhas.) Lindbergh tentou ler a delação e chegou a esta frase: “Bolsonaro é um ladrão! Vai ser preso por corrupção!” É a fala de quem a disse; na data, não havia condenação de Bolsonaro por corrupção. Sobre os gritos, ele disse: “Isso é fascismo, pessoal. Eles gritam. Eles tentam assassinar.” A presidente, aos colegas: “Nós todos somos Deputados eleitos pelo povo. Isso que está acontecendo aqui é uma vergonha.”

O fim foi uma conta. Lindbergh: “Olhe o tempo, Presidente. Eu perdi 1 minuto agora.” E: “Tem que repor 6, 7, 8...” A presidente: “Deputado, concedo 1 minuto a V.Exa. para que conclua a sua fala.” Ele: “São 3 minutos, Sra. Presidente.” Ela: “Tem 1 minuto para concluir sua fala.” O plenário: “Fora! Fora! Fora!”, “Sem anistia! Sem anistia! Sem anistia!”, “Fascistas! Fascistas! Fascistas.” A última fala da presidente está partida no registro por uma pausa: “Olhem, está suspensa...” e, depois dela, “Não há mais tempo, não há mais tempo.” Então, inteira: “A sessão está suspensa.” E o parêntese final, que ninguém disse: (Suspende-se a sessão às 18 horas e 42 minutos.)

Catorze minutos depois, às 18h56, a sessão tinha voltado e Lindbergh estava de novo na tribuna. Disse: “Nós temos que garantir aqui o mínimo de convivência institucional.” E encerrou com as duas palavras que, minutos antes, as notas tinham anotado como grito do plenário, sem nome: “Sem anistia! Sem anistia!” Naquela meia hora, o taquígrafo escreveu “Manifestação no plenário” 47 vezes: 16 durante a fala de Nikolas, 31 durante a de Lindbergh. É o jeito que a língua da Casa tem de guardar o que foi gritado sem dizer quem gritou. Entre parênteses mora o que a tribuna não assina. Fora deles, às 18h56, a mesma frase tinha nome, partido e microfone.

Como fizemos

A crônica foi escrita a partir do texto integral de três discursos da sessão deliberativa da Câmara de 19 de fevereiro de 2025, lidos do começo ao fim no acervo da casa, que guarda a lista oficial de discursos de Plenário com a transcrição das notas taquigráficas: Nikolas Ferreira (PL-MG), como líder, às 18h12 (Diário da Câmara de 20/02/2025, p. 120); Lindbergh Farias (PT-RJ), como líder, às 18h20 (p. 122); e Lindbergh de novo, às 18h56, depois da suspensão (p. 130).

As falas da presidente da sessão, Delegada Katarina (PSD-SE), e os coros não têm discurso próprio na lista: a taquigrafia os registra dentro do texto de Lindbergh, com o cabeçalho dela (“A SRA. PRESIDENTE”) ou entre parênteses (“Manifestação no plenário: …”). O parêntese não diz quem gritou, nem de que bancada; por isso a crônica diz “o plenário”.

A hora de cada discurso é a da lista oficial, que marca o início da fala; os gritos não têm hora própria. A hora da suspensão é a da marca da taquigrafia, “Suspende-se a sessão às 18 horas e 42 minutos”. “Catorze minutos” é a diferença entre essa marca e o início do discurso das 18h56.

Cada trecho entre aspas foi conferido por programa como parte do texto oficial, na fala de quem a crônica nomeia (coro: dentro de um parêntese de manifestação do plenário). A contagem de manifestações (47; 16 e 31) é a das marcas “Manifestação no plenário” nos dois discursos, feita por programa; as cinco respostas “Não!” e as onze “Golpe!” também.

As decisões oficiais citadas junto das acusações vêm do dossiê da Tribuna quente: a denúncia da PGR é de 18 de fevereiro de 2025 e, na data da sessão, o Supremo ainda não a tinha julgado; não havia condenação de Bolsonaro por corrupção; em 8 de março de 2021 o Supremo anulou, por incompetência do juízo, as decisões da 13ª Vara de Curitiba nas ações do tríplex, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula (não foi absolvição de mérito), e o Plenário confirmou em 15 de abril de 2021; as duas notícias oficiais do STF estão nas fontes.

O que esta crônica não diz

Esta crônica não é a reportagem: a medida das sessões mais quentes (quantas marcas de tumulto e manifestação, em que anos, com quem na tribuna) está na Tribuna quente. Não diz quem gritou: o registro anota “Manifestação no plenário” sem nome. Não diz quem tinha razão. As acusações entre aspas são de quem as disse; o jornal não verifica cada afirmação feita da tribuna e informa, quando há, a decisão oficial da data. No acervo da casa, Nikolas não voltou à tribuna depois da suspensão naquele dia; a fala de Lindbergh das 18h56 é a última das duas.

Fontes

  1. Câmara dos Deputados — discurso de Nikolas Ferreira (PL-MG), 19/02/2025, 18h12 (Diário de 20/02/2025, p. 120)
  2. Câmara dos Deputados — discurso de Lindbergh Farias (PT-RJ), 19/02/2025, 18h20, com as falas da presidente e as manifestações do plenário (Diário de 20/02/2025, p. 122)
  3. Câmara dos Deputados — discurso de Lindbergh Farias (PT-RJ), 19/02/2025, 18h56 (Diário de 20/02/2025, p. 130)
  4. Câmara dos Deputados — lista oficial de discursos de Plenário de 19 de fevereiro de 2025
  5. STF — decisão de 8/3/2021 que anula as decisões da 13ª Vara de Curitiba nas ações do tríplex, de Atibaia e do Instituto Lula
  6. STF — Plenário confirma, em 15/4/2021, a anulação

Converse com a redação

Achou um erro, tem uma dúvida, quer mais desta história? Escreva. A redação lê tudo e responde aqui, em público. Comentário e resposta passam por triagem e levam até cerca de 1 hora para aparecer. Erro que procede vira errata nesta página. As regras do balcão.

Até 1.500 caracteres. Não publicamos insulto, dado pessoal nem propaganda.

O que os leitores disseram

Abrindo o balcão…

    Mais do Aparte