Na Câmara, 2019 teve mais tumulto e apupos (vaias) anotados do que todos os anos seguintes somados
Nas notas taquigráficas, 56 dos 102 registros de tumulto ou apupos são de 2019. A sessão com mais reações do plenário veio depois: 19 de fevereiro de 2025, suspensa às 18h42.
Às 18h12 de 19 de fevereiro de 2025, uma quarta-feira, Nikolas Ferreira (PL-MG) sobe à tribuna da Câmara no tempo de liderança e faz perguntas ao plenário. “Foi por dinheiro na cueca?” A resposta vem em coro, e a taquigrafia anota entre parênteses: “(Manifestação no plenário: Não!)”. O “Não!” se repete cinco vezes.
Então ele troca o refrão: “Se tirar do vocabulário de vocês as palavras ‘golpe’ e ‘fascista’, vocês ficam mudos.” Segue uma lista de frases que começam por “Golpe é”. A cada uma, o plenário devolve “Golpe!”. A taquigrafia registra o eco onze vezes. Numa delas, Nikolas diz: “Golpe é um vagabundo, mentiroso, ladrão que é Lula, condenado em três instâncias, ser Presidente da República!”
A seção não verifica cada afirmação. As condenações de Lula foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Em 8 de março de 2021, o ministro Edson Fachin anulou as decisões da 13ª Vara Federal de Curitiba nas quatro ações penais contra ele, entre elas a do tríplex do Guarujá e a do sítio de Atibaia. Em abril de 2021, o Plenário do STF confirmou a decisão, por 8 votos a 3.
Às 18h20, a tribuna é de Lindbergh Farias (PT-RJ). “Sra. Presidente, eu vejo essa cena patética.” Na véspera, a Procuradoria-Geral da República (PGR) tinha apresentado as denúncias da tentativa de golpe de Estado, contra Jair Bolsonaro e mais 33 pessoas. O plenário grita “Mensaleiro! Mensaleiro!” e “Assassino! Genocida!”. O registro não diz quem gritou, nem para quem. Lindbergh pede: “Eu quero que o meu tempo seja garantido.”
Ele se dirige aos que gritam: “Os senhores tramaram um golpe de Estado.” Mais adiante, citando a delação do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro: “Bolsonaro é um ladrão! Vai ser preso por corrupção!”
A seção não verifica cada afirmação. Em 26 de março de 2025, a Primeira Turma do STF recebeu a denúncia contra Bolsonaro e os outros acusados do “Núcleo 1”, como o tribunal chama o grupo. Em 11 de setembro de 2025, a Turma condenou Bolsonaro e mais sete réus, por 4 votos a 1. Entre os crimes da condenação estão golpe de Estado e organização criminosa armada; corrupção não está entre eles. No caso das joias, tema da delação citada, que envolve Bolsonaro, a Polícia Federal entregou o relatório final ao STF em julho de 2024; o tribunal abriu prazo para a PGR pedir provas, arquivar ou denunciar.
A taquigrafia anota ainda “Odebrecht! Odebrecht! Odebrecht!”, “Pede pra sair!”, “Palocci! Palocci! Palocci!” e “Atibaia! Atibaia! Atibaia!”. Um dos coros nomeia o alvo: “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão!”. Para ele vale a decisão do STF de 2021, que anulou as condenações de Lula. Na mesma fala, o registro traz “Golpistas! Golpistas! Golpistas!”, “Sem anistia! Sem anistia! Sem anistia!” e “Fascistas! Fascistas! Fascistas.” A taquigrafia não diz de que bancada veio cada coro.
Quem preside, a deputada Delegada Katarina (PSD-SE), manda restituir o tempo de Lindbergh e anuncia a régua: “Isto serve para os dois lados: todas as vezes em que um colega estiver usando a tribuna e for interrompido por essa falta de respeito, tanto de um lado como do outro, vou restituir o tempo.” Lindbergh, sob os gritos: “Isso é fascismo, pessoal. Eles gritam. Eles tentam assassinar.” Katarina: “Isso que está acontecendo aqui é uma vergonha.”
Ela dá a Lindbergh um minuto para concluir. Os coros voltam. Então: “Olhem, está suspensa...” E por fim: “A sessão está suspensa.” A taquigrafia fecha a cena: “(Suspende-se a sessão às 18 horas e 42 minutos.)”
Na fala de Nikolas, a taquigrafia anotou 16 reações do plenário. Na de Lindbergh, 31.
Somadas, as 47 fazem de 19 de fevereiro de 2025 a sessão com mais reações anotadas no acervo, nas duas Casas.
- 18h12Nikolas Ferreira (PL-MG) fala no tempo de liderança. A taquigrafia anota 16 reações do plenário.
- 18h20Lindbergh Farias (PT-RJ) fala no tempo de liderança. A taquigrafia anota 31 reações do plenário.
- 18h42A presidente da sessão, Delegada Katarina (PSD-SE), suspende a sessão.
Fonte: Diário da Câmara dos Deputados de 20/2/2025, p. 120 e 122. A hora de cada fala é a do início do discurso; a da suspensão está na nota taquigráfica.
A exceção e o ano de 2019
A cena é exceção. O Aparte leu as marcas que a taquigrafia escreve entre parênteses em 71.606 falas da Câmara, de fevereiro de 2019 a outubro de 2026. São as falas dos 412 deputados que o acervo do jornal acompanha.
O conflito explícito tem duas marcas: “(Tumulto no plenário.)” e “(Apupos.)”. Elas aparecem 102 vezes. Cabem em 49 dias.
E se concentram num ano. Em 2019, primeiro ano da legislatura e do governo Jair Bolsonaro, foram 56 marcas. É mais do que todos os anos seguintes somados.
Em 2019, a taquigrafia anotou 5,6 marcas a cada mil falas. Em 2025, o segundo ano com mais marcas, 1,4.
Os anos de 2020 e 2021 somam 3 marcas. Em março de 2020, na pandemia de covid-19, a Câmara adotou o voto a distância (Resolução 14/2020). O acervo não separa quanto da queda vem disso.
Fonte: Câmara dos Deputados, dados abertos (discursos por deputado, com o texto das notas taquigráficas), fevereiro de 2019 a outubro de 2026. Cálculo do Aparte.
Ver dados
| Ano | Marcas de tumulto ou apupos |
|---|---|
| 2019 | 56 |
| 2020 | 2 |
| 2021 | 1 |
| 2022 | 6 |
| 2023 | 15 |
| 2024 | 5 |
| 2025 | 17 |
| 2026 | 0 |
O dia com mais tumulto e apupos é 15 de maio de 2019, com 7 marcas. A Câmara recebia, em comissão geral, o ministro da Educação, Abraham Weintraub. No discurso que começa às 19h56, André Janones (Avante-MG) se dirige ao ministro: “Olhe para mim enquanto eu estou falando, seu covarde!” Vem “(Tumulto no plenário.)”.
Na mesma noite, as marcas caem também em discursos do PSL, então partido do presidente, e do PP. Às 20h36, Filipe Barros (PSL-PR) comenta uma frase da ex-presidente Dilma Rousseff: “Eu sei que é difícil interpretarmos essa fala, porque é da Sra. Dilma Rousseff, que talvez seja analfabeta funcional.” A taquigrafia anota “(Palmas e apupos.)”. Às 20h44, Professor Alcides (PP-GO): “Alguns aqui disseram que são professores, mas são professores que não têm educação.” O presidente da sessão, Marcos Pereira (PRB-SP), avisa: “Se V.Exas. não se comportarem, eu vou encerrar a sessão. Calma!”
Os dois lados, a mesma régua
Para comparar, o Aparte juntou os partidos em dois grupos. O do PT reúne PT, PSOL, PCdoB, PSB, PDT, Rede e PV. O do PL reúne PL, Novo, PP, União, Republicanos e siglas que deixaram de existir, como PSL e DEM. MDB, PSD, PSDB, Podemos e os demais ficam fora. Cada marca conta no discurso em que aparece, com o partido do orador na data.
Nos discursos do grupo do PL caíram 51 marcas de tumulto e apupos. Nos do grupo do PT, 40. O resto caiu em outros discursos.
Oito marcas caíram em discursos de Marcel van Hattem (Novo-RS). Glauber Braga (PSOL-RJ) e Jorge Solla (PT-BA) vêm logo atrás, com sete cada.
Em 5 de abril de 2022, no discurso que começa às 16h32, Glauber responde a um colega: “Esse Deputado que acabou de ir à tribuna é no mínimo um néscio.” A taquigrafia anota três vezes “(Tumulto no plenário.)”. O outro lado não está no acervo: o colega não é nomeado no trecho, e a fala dele não está nos arquivos do Aparte.
A palavra que some
Uma marca cresce. Quando quem preside manda apagar uma palavra, a taquigrafia escreve no lugar “(expressão retirada por determinação da Presidência)”. A palavra some; fica o buraco. O acervo da Câmara tem 166 buracos. Desde 2023, são 150.
Fonte: Câmara dos Deputados, dados abertos (discursos por deputado, com o texto das notas taquigráficas), fevereiro de 2019 a outubro de 2026. Cálculo do Aparte.
Ver dados
| Ano | Expressões retiradas |
|---|---|
| 2019 | 6 |
| 2020 | 1 |
| 2021 | 2 |
| 2022 | 7 |
| 2023 | 42 |
| 2024 | 58 |
| 2025 | 7 |
| 2026 | 43 |
Em 20 de junho de 2023, às 17h44, Bibo Nunes (PL-RS) pede a palavra: “O nobre Deputado milionário do PSOL voltou! Voltou com (expressão retirada por determinação da Presidência)”. O presidente da sessão, Gilberto Nascimento (PSD-SP), explica: “esta expressão nós vamos pedir à taquigrafia que retire.”
Do outro lado, em 8 de novembro de 2022, às 19h40, Glauber Braga (PSOL-RJ) relata: “o Deputado José Medeiros utilizou o microfone para me chamar de (expressão retirada por determinação da Presidência) enquanto eu estava fazendo o debate político nesta sessão.”
Os buracos não se distribuem por igual. De 2023 a 2026, 114 caíram em discursos do grupo do PL. Nos do grupo do PT, 15.
A diferença não se explica pelo número de discursos de cada grupo. A cada mil discursos, o grupo do PL tem 6,4 expressões retiradas. O grupo do PT, 1,1.
Por partido, desde 2019, o PL soma 92 expressões retiradas. O PT, 9.
O número tem limite. O buraco mede a decisão de quem preside, não o insulto: palavra que a Presidência não mandou retirar não entra na conta.
A série também oscila. Em 2025, foram só 7. Até outubro de 2026, 43. O registro não diz por quê.
Com o microfone, a diferença vai no sentido contrário. De 2023 em diante, a marca “Desligamento do microfone” aparece 40,7 vezes a cada mil discursos do grupo do PT. No grupo do PL, 30,1. A marca não diz se quem cortou o som foi o relógio ou quem presidia.
- Desligamento do microfone40,730,1
- Manifestação no plenário10,49,6
- Expressão retirada1,16,4
- Tumulto ou apupos1,50,7
Fonte: Câmara dos Deputados, dados abertos (discursos por deputado, com o texto das notas taquigráficas), fevereiro de 2019 a outubro de 2026. Cálculo do Aparte. Grupo do PT: PT, PSOL, PCdoB, PSB, PDT, Rede e PV. Grupo do PL: PL, Novo, PP, União, Republicanos (antes PRB), PSL, DEM, PSC, PTB, Patriota e PRTB.
Ver dados
| Marca | Grupo do PT (por mil discursos) | Grupo do PL (por mil discursos) | Grupo do PT (marcas) | Grupo do PL (marcas) |
|---|---|---|---|---|
| Desligamento do microfone | 40,7 | 30,1 | 553 | 537 |
| Manifestação no plenário | 10,4 | 9,6 | 141 | 172 |
| Expressão retirada | 1,1 | 6,4 | 15 | 114 |
| Tumulto ou apupos | 1,5 | 0,7 | 21 | 12 |
No Senado, a pasta
No Senado, o conflito anotado é ainda mais raro. São 16 marcas de “(Tumulto no recinto.)”, desde 2011. Onze delas, em 2019.
A sessão com mais marcas é a de 1º de fevereiro de 2019, com seis. Era a sessão que elegeria o presidente da Casa, e Davi Alcolumbre (DEM-AP) presidia. Kátia Abreu (PDT-TO) protestava: “Ele é candidato e não pode presidir esta sessão.” Alcolumbre pediu a ela “que me devolva a pasta da condução dos trabalhos”. Kátia: “Não devolvo.” E depois: “Vem tomar.”
O conflito explícito é raro nas notas taquigráficas. Quando aparece, cai nos discursos dos dois lados, e a taquigrafia anota os dois.
Como fizemos
Lemos o texto integral das notas taquigráficas de 71.606 falas da Câmara, de fevereiro de 2019 a outubro de 2026, dos 412 deputados que o acervo do Aparte acompanha, e de 19.985 pronunciamentos de 64 senadores, de 2011 a 2026. As falas da Câmara cobrem 916 dias. Fontes: dados abertos da Câmara (discursos por deputado) e do Senado (pronunciamentos e seus textos).
Um programa, sem inteligência artificial, contou as marcas que a taquigrafia escreve entre parênteses e as classificou por regras fixas, escritas no código. Tumulto: “Tumulto no plenário” ou “no recinto”. Apupos: “Apupos”, “Palmas e apupos”, “Apupos nas galerias”. Manifestação: “Manifestação no plenário”, “nas galerias”, “da galeria” ou “da plateia”, com ou sem o texto do coro. Expressão retirada: “expressão retirada por determinação da Presidência” e o plural, “expressões retiradas por determinação da Presidência” (4 das 166). Microfone: “Desligamento automático do microfone” e “Desligamento do microfone”. Conflito explícito é a soma de tumulto e apupos. A marca “Vaias” não existe no acervo.
Às vezes, a mesma marca, no mesmo ponto do texto, aparece nas falas de dois deputados que se sobrepõem: contou uma vez só (50 repetições descartadas). Sessão é a casa e o dia. Cada marca conta no discurso em que aparece; o grupo é o do partido no cabeçalho de abertura desse discurso, na data, e discurso aberto pela Presidência conta como Mesa. Por esse critério, marca anotada durante um aparte vai para o dono do discurso. As taxas usam como base os discursos de cada grupo no mesmo período, pela mesma regra.
Os grupos de partidos são convenção de trabalho, não rótulo. Grupo do PT: PT, PSOL, PCdoB, PSB, PDT, Rede e PV. Grupo do PL: PL, Novo, PP, União, Republicanos (antes PRB), PSL, DEM, PSC, PTB, Patriota e PRTB. Os demais partidos ficam fora dos dois.
Cada citação entre aspas foi conferida, letra por letra, no texto integral da nota taquigráfica; a página do Diário da Câmara, na URL oficial de cada discurso. Acusação feita na tribuna aparece como afirmação de quem falou, com a nota “a seção não verifica cada afirmação” e, quando existe, a decisão oficial pertinente, conferida nas páginas do STF e do Ministério Público Federal (dever de cuidado fixado pelo STF no Tema 995). Não procuramos os citados.
O que este número não diz
O acervo é parcial: tem as falas de 412 deputados e 64 senadores, não as de todos. Uma sessão só aparece pelos trechos em que eles falaram, e toda contagem é piso. “Manifestação no plenário” não é sinônimo de briga: pode ser aplauso, coro ou grito, e só o texto anotado, quando existe, mostra o tom. A marca não identifica quem gritou nem de que bancada veio. Na Câmara, a hora é a do início do discurso, não a do grito; no Senado, o acervo não traz hora. Em 2023, a taquigrafia da Câmara mudou de vocabulário: “Desligamento automático do microfone” aparece 2.212 vezes de 2019 a 2022 e 159 depois; “Desligamento do microfone”, 23 antes e 1.187 depois. Comparar anos pelo nome da marca exige esse cuidado. Em 2020 e 2021, a Câmara também votou a distância, e o acervo não separa quanto da queda vem disso. Insulto sem marca da taquigrafia não entra na conta: não há ranking de quem xinga mais. A expressão retirada mede a decisão de quem presidia, não o insulto.
Fontes
- Diário da Câmara dos Deputados, 20/2/2025, p. 120 — Nikolas Ferreira
- Diário da Câmara dos Deputados, 20/2/2025, p. 122 — Lindbergh Farias, Delegada Katarina e a suspensão
- Diário da Câmara dos Deputados, 16/5/2019, p. 108 — André Janones
- Diário da Câmara dos Deputados, 16/5/2019, p. 121 — Filipe Barros
- Diário da Câmara dos Deputados, 16/5/2019, p. 124 — Professor Alcides e Marcos Pereira
- Diário da Câmara dos Deputados, 6/4/2022, p. 89 — Glauber Braga
- Diário da Câmara dos Deputados, 9/11/2022, p. 153 — Glauber Braga
- Diário da Câmara dos Deputados, 21/6/2023, p. 56 — Bibo Nunes e Gilberto Nascimento
- Senado Federal — sessão de 1º/2/2019, Davi Alcolumbre e Kátia Abreu (pronunciamento 450408)
- STF — Fachin anula condenações de Lula e manda ações penais para Justiça Federal do DF (8/3/2021, HC 193726)
- STF — STF confirma anulação de condenações do ex-presidente Lula na Lava Jato (abril de 2021, 8 votos a 3)
- Ministério Público Federal — PGR reitera pedido de condenação de políticos e militares (25/3/2025; denúncias de 18 de fevereiro)
- STF — STF recebe denúncia contra Núcleo 1 por tentativa de golpe de Estado (26/3/2025)
- STF — STF condena os oito réus do Núcleo 1 da ação por tentativa de golpe de Estado (11/9/2025, AP 2668)
- STF — STF retira sigilo do caso das joias, dá acesso às partes e abre vista para análise da PGR (8/7/2024, PET 11645)
- Câmara dos Deputados — Resolução nº 14, de 17 de março de 2020 (Sistema de Deliberação Remota)
- Câmara dos Deputados — API de dados abertos, discursos por deputado
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