Na tribuna do Congresso, a direita xinga quatro vezes mais que a esquerda
Desde 2019, 143 falas de deputados e senadores da direita chamam político, partido, governo, imprensa ou colega de “canalha”, “vagabundo” e afins; da esquerda, 35, com quase o mesmo número de falas de cada lado. Na acusação e no rótulo político, a esquerda vai à frente.
O Aparte leu 116.763 falas de deputados e senadores na tribuna. Em 1.778, uma palavra de xingamento, acusação ou rótulo, como “canalha”, “ladrão” ou “genocida”, aparece perto de um nome, um partido ou uma instituição: uma fala em cada 66. A conta é automática; numa amostra lida, sete em cada dez eram insulto ou acusação de fato.
O xingamento puro tem lado. Desde 2019, palavras como “vagabundo”, “canalha”, “safado” e “verme” aparecem em 251 falas de parlamentares de partidos da direita. Nas da esquerda, em 46. Os dois campos ocuparam a tribuna quase o mesmo número de vezes: cerca de 40 mil cada. Pela contagem automática, seriam quase seis vezes mais.
Contar palavras tem ruído; por isso o Aparte leu as 297 falas, uma a uma, no trecho da palavra. Na direita, 65 eram ofensa a quem comete crime comum, quase sempre “vagabundo” dito de traficante ou assaltante. Entre as 46 da esquerda, nenhuma; mas o filtro automático já tinha tirado antes, dos dois lados, as frases com alvo criminoso. Outras eram citação, ou o insulto ia para uma lei ou uma estrada.
Ficaram 143 falas da direita com xingamento a político, partido, governo, imprensa ou colega. Da esquerda, ficaram 35. A distância cai, mas fica: por fala, a direita xinga quatro vezes mais.
- Xingamento a político, partido, governo, imprensa ou colega, lido frase a frase0,93,6
- Xingamento, contado pela palavra1,16,3
- Acusação e rótulo, fora as falas de xingamento17,714,2
- Núcleo inteiro: xingamento, acusação e rótulo18,619,6
Fonte: Câmara dos Deputados e Senado Federal, dados abertos (discursos com o texto integral das notas taquigráficas): 392 deputados, 2019 a outubro de 2026, e 63 senadores, 2011 a 2026. Cálculo do Aparte. Esquerda: PT, PSOL, PCdoB, PSB, PDT, Rede e PV. Direita: PL (PR até 2019), PSL, Novo, PP, Republicanos (PRB até 2019), União, DEM, PSC, PTB, Patriota, PRTB, PRD e Missão. Partido do orador na data da fala. Sem “esquerdista” na lista.
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| Medida | Esquerda (por mil falas) | Direita (por mil falas) | Esquerda (falas) | Direita (falas) |
|---|---|---|---|---|
| Xingamento a político, partido, governo, imprensa ou colega, lido frase a frase | 0,9 | 3,6 | 35 | 143 |
| Xingamento, contado pela palavra | 1,1 | 6,3 | 46 | 251 |
| Acusação e rótulo, fora as falas de xingamento | 17,7 | 14,2 | 728 | 561 |
| Núcleo inteiro: xingamento, acusação e rótulo | 18,6 | 19,6 | 763 | 776 |
Na acusação e no rótulo político, a conta se inverte. Fora as falas de xingamento, a esquerda tem 17,7 falas por mil com palavra de acusação ou rótulo. A direita, 14,2.
Aqui a régua pesa. A lista do pesquisador contava “esquerdista” como rótulo; a palavra sai quase só da direita, e o espelho dela, “bolsonarista” ou “extrema direita”, não estava na lista. Com ela, os campos empatavam, perto de 18 por mil. O Aparte a tirou: quase sempre descreve, como “comunista”, que já ficava fora.
Cada lado tem seu vocabulário. Desde 2019, “genocida” sai da esquerda em 78% das vezes; “fascista”, em 83%. “Ladrão” sai da direita em 76%.
A Câmara fala mais duro que o Senado, e esquentou. A taxa ficou em 17,6 por mil em 2023 e em 2024. Subiu para 22,5 em 2025. Até outubro de 2026, está em 25,7. Só 2021 foi mais alto, com 33,3.
O xingamento puro mais que dobrou na Câmara de 2024 para 2025 e ficou perto disso em 2026. Em 2025, foram 7,0 falas com xingamento a cada mil.
Fonte: Câmara dos Deputados e Senado Federal, dados abertos (discursos com o texto integral das notas taquigráficas): 392 deputados, 2019 a outubro de 2026, e 63 senadores, 2011 a 2026. Cálculo do Aparte.
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| Ano | Falas com palavra do núcleo, por mil |
|---|---|
| 2019 | 12,8 |
| 2020 | 14 |
| 2021 | 33,3 |
| 2022 | 23,1 |
| 2023 | 17,6 |
| 2024 | 17,6 |
| 2025 | 22,5 |
| 2026 | 25,7 |
Quem está na oposição fala mais duro. O Aparte comparou o campo do presidente com o adversário em seis pares de governo e Casa. A oposição fala mais em cinco. Na Câmara de Lula, a oposição de direita chega a 26,2 falas por mil. A base de esquerda, a 15,1.
A exceção é o Senado de Temer, e ela tem nome: Magno Malta, do Espírito Santo, então no PR, hoje PL. Ali, ele tem 441 das 493 falas da base de direita e todas as 28 com palavra do núcleo. No Senado de Dilma, é metade da oposição de direita: 659 das 1.261 falas.
- Dilma (Senado)1,910,3
- Temer (Senado)56,810,7
- Bolsonaro (Câmara)22,826,3
- Bolsonaro (Senado)0,37,7
- Lula (Câmara)15,126,2
- Lula (Senado)3,810,5
Fonte: Câmara dos Deputados e Senado Federal, dados abertos (discursos com o texto integral das notas taquigráficas): 392 deputados, 2019 a outubro de 2026, e 63 senadores, 2011 a 2026. Cálculo do Aparte. Governo de Dilma: esquerda; de Temer e de Bolsonaro: direita; de Lula: esquerda. O centro fica fora. No Senado, Magno Malta tem 441 das 493 falas da direita no governo Temer e 659 das 1.261 no governo Dilma.
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| Governo e Casa | Campo do governo (por mil) | Campo da oposição (por mil) | Falas do campo do governo | Falas da oposição | Falas de Magno Malta no campo da direita |
|---|---|---|---|---|---|
| Dilma (Senado) | 1,9 | 10,3 | 5.354 | 1.261 | 659 |
| Temer (Senado) | 56,8 | 10,7 | 493 | 2.621 | 441 |
| Bolsonaro (Câmara) | 22,8 | 26,3 | 9.238 | 19.593 | — |
| Bolsonaro (Senado) | 0,3 | 7,7 | 3.385 | 3.240 | — |
| Lula (Câmara) | 15,1 | 26,2 | 13.536 | 17.940 | — |
| Lula (Senado) | 3,8 | 10,5 | 4.736 | 8.970 | 1.382 |
O alvo mais frequente é o governo da vez: em 740 ocorrências, a palavra está perto de governo, Planalto ou ministério. Entre os nomes por perto, o sobrenome Bolsonaro aparece 493 vezes. Lula, 306.
- Governo, Planalto, ministérios740
- Esquerda, PT e aliados179
- O colega, na segunda pessoa320
- Congresso, bancadas, oposição278
- Direita, PL e aliados115
- Polícia, Forças Armadas, Ministério Público105
- STF e Judiciário88
- Imprensa50
- Bolsonaro493
- Lula306
- Moro31
- Dilma13
- Temer7
Fonte: Câmara dos Deputados e Senado Federal, dados abertos (discursos com o texto integral das notas taquigráficas): 392 deputados, 2019 a outubro de 2026, e 63 senadores, 2011 a 2026. Cálculo do Aparte. Um nome por perto não quer dizer que ele seja o alvo: pode ser de quem fala ou de quem é defendido. “Bolsonaro” conta o sobrenome; “Moro” não inclui “Sergio Moro”, contado à parte.
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| Grupo | Alvo | Ocorrências |
|---|---|---|
| Grupos e instituições | Governo, Planalto, ministérios | 740 |
| Grupos e instituições | Esquerda, PT e aliados | 179 |
| Grupos e instituições | O colega, na segunda pessoa | 320 |
| Grupos e instituições | Congresso, bancadas, oposição | 278 |
| Grupos e instituições | Direita, PL e aliados | 115 |
| Grupos e instituições | Polícia, Forças Armadas, Ministério Público | 105 |
| Grupos e instituições | STF e Judiciário | 88 |
| Grupos e instituições | Imprensa | 50 |
| Nomes | Bolsonaro | 493 |
| Nomes | Lula | 306 |
| Nomes | Moro | 31 |
| Nomes | Dilma | 13 |
| Nomes | Temer | 7 |
As frases, com a mesma régua
Da esquerda. Em 4 de setembro de 2019, às 18h04, Maria do Rosário (PT-RS) reagia a uma declaração de Jair Bolsonaro sobre Michelle Bachelet, então alta comissária da ONU. Repetiu a palavra que Tancredo Neves disse aos golpistas e a aplicou: “Canalha é Bolsonaro, que ataca as mulheres, que ataca Bachelet, que ataca os direitos humanos” (texto oficial).
Em 8 de outubro de 2019, às 18h44, Gleisi Hoffmann (PT-PR) respondia aos deputados que ligavam o PT ao crime organizado: “Tenham vergonha! Deixem de ser safados, mentirosos!” (texto oficial).
Em 22 de abril de 2026, às 18h00, André Janones (Rede-MG) citou Cecília Meireles para responder ao ex-governador de Minas Romeu Zema (Novo), que deixara o cargo em março e falara dos beneficiários do Bolsa Família: “Você, Romeu Zema, é esse verme” (texto oficial).
Da direita. Em 28 de novembro de 2019, às 16h28, Otoni de Paula (PSC-RJ), sobre um chamado de Lula a protestos como os do Chile: “o que esse vagabundo, esse molusco do PT quer?” (texto oficial).
Em 28 de fevereiro de 2023, às 15h52, Gilvan da Federal (PL-ES) leu frases da jornalista Míriam Leitão e completou: “Vocês são canalhas e hipócritas!” (texto oficial).
No Senado, em 13 de junho de 2024, Cleitinho (Republicanos-MG) falou do ex-presidente da Câmara: “Eduardo Cunha é outro cretino – outro cretino –, querendo virar candidato em 2026.” (texto oficial).
A direita também xinga a direita. Em 1º de fevereiro de 2021, às 21h24, Kim Kataguiri (DEM-SP): “Carlos Lacerda sentiria vergonha de ver um verme como Jair Bolsonaro chamando-se de conservador.” (texto oficial).
Contra grupos: poucos casos, com endereço
Ofensa a um grupo inteiro é rara no acervo.
As 4 falas com “ditadura gay”, “gayzismo”, “valores sodomitas” e expressões vizinhas são de um deputado só: Otoni de Paula (RJ), três pelo PSC e uma pelo MDB. Em 22 de outubro de 2019, às 14h16: “eu subo a esta tribuna para fazer uma denúncia sobre o que eu chamo de ditadura gay, ‘gayzismo’.” (texto oficial).
Em 22 de maio de 2024, às 14h20, já no MDB, Otoni falou de uma exposição de arte paga pela Prefeitura de Fortaleza que tratava de infância trans. Disse que “quem quiser ser gay que seja.” E depois: “Respeitem a infância, seus pederastas! Respeitem a infância, seus covardes!” (texto oficial).
Com “veado”, “viado”, “bicha”, “sapatão”, “traveco” ou “pederasta”, são 17 falas. Em duas, o próprio orador usa a palavra para se referir a alguém: a de Otoni e uma de Magno Malta (PL-ES), no Senado.
Magno Malta falava, em 11 de setembro de 2023, de mulheres trans no esporte feminino: “aí ele se torna mulher, ele vira o primeiro e humilha as mulheres.” Na mesma fala, chama de “sapatão assumido” a vereadora Jessicão, de Londrina, a quem elogia (texto oficial).
Na esquerda, a única fala com essas palavras é de Daiana Santos (PCdoB-RS), que fala de si mesma, em 22 de agosto de 2023: “pelo orgulho de ser uma mulher sapatão” (texto oficial).
Gênero. Em 3 de dezembro de 2020, às 12h12, Bibo Nunes (PSL-RS) anunciou: “Para Deputada histérica vou criar um neologismo: ‘Deputérica’.” (texto oficial). Às 13h16, Jandira Feghali (PCdoB-RJ) respondeu da tribuna e anunciou uma representação ao Conselho de Ética (texto oficial). A lista oficial do Conselho não tem nenhuma por essa fala: registra que não recebeu representações em 2020, e as de 2021 e 2022 não citam Bibo Nunes.
Em 8 de março de 2023, Dia Internacional da Mulher, às 14h44, Nikolas Ferreira (PL-MG) subiu à tribuna. A taquigrafia anota “(O Deputado coloca uma peruca.)” Ele diz: “Hoje eu me sinto mulher, a Deputada Nikole.” E depois: “As mulheres estão perdendo o seu espaço para homens que se sentem mulheres.” (texto oficial).
No mesmo dia, segundo a Agência Câmara, o presidente da Casa, Arthur Lira, escreveu nas redes que o deputado “merece minha reprimenda pública”. O PDT levou o caso ao Conselho de Ética. Em 9 de agosto de 2023, por 12 votos a 5, o Conselho arquivou a representação, com recomendação de censura escrita.
Raça. “Capitão do mato” aparece em 20 falas. São 14 da esquerda e seis da direita. Na esquerda, a expressão vai a um alvo identificável em seis; nas demais, é metáfora ou história.
Duas são de Erika Kokay (PT-DF), sobre Sérgio Camargo, nomeado em novembro de 2019 para presidir a Fundação Palmares; na véspera da primeira fala, a Justiça Federal suspendera a nomeação por liminar. Em 5 de dezembro de 2019, às 14h28: “É um capitão do mato! É a reedição daqueles que se utilizavam da sua condição e da sua negritude para negá-la” (texto oficial). As outras vão a adversários, como o ministro Sergio Moro: segundo Paulo Guedes (PT-MG), o presidente “se submete o Ministro da Justiça à condição de capitão do mato” (texto oficial).
As seis falas da direita são queixas de que Hélio Lopes (PL-RJ) foi chamado assim; duas são dele mesmo. Em 10 de maio de 2023, às 20h36, ele contou que um juiz criminal do Rio decidiu: “Ele decide que chamar o Deputado Helio Lopes de capitão do mato não é racismo.” (texto oficial). A seção não verifica cada afirmação. O Aparte não localizou essa decisão em fonte oficial.
Nenhuma das 20 falas do acervo o chama assim: o acervo guarda o que cada orador disse com a palavra, não o grito do plenário nem as redes.
Deficiência. Com “débil mental”, “retardado” ou “mongol”, no singular ou no plural, são 31 falas. Em sete, a palavra é insulto dirigido a alguém: 3 da direita, 2 do centro e 2 da esquerda.
Da esquerda, Humberto Costa (PT-PE), no Senado, em 2014, sobre colunistas de jornais: “Esses débeis mentais propriamente ditos precisam ler a Constituição” (texto oficial); e Jorge Kajuru (PSB-GO), em 2023: “Ricardo Salles é débil mental, tinha que ser internado.” (texto oficial). Do centro, o mesmo Kajuru, em 2021, pelo Cidadania, sobre o governador do Distrito Federal (texto oficial), e Marcos do Val (Podemos-ES), sobre quem mandou apreender seu passaporte: “Será que ele é retardado?” (texto oficial).
Da direita, duas falas de André Fernandes (PL-CE), como a de 8 de maio de 2024: “Somente um idiota, um retardado, não consegue assimilar” (texto oficial). E Zé Trovão (PL-SC), em 2026: “o Governo é maluco, doido, retardado, ou quer só arrumar um problema para o Brasil?” (texto oficial).
Outras cinco usam a palavra para dizer como alguém veria o povo: 4 da direita e 1 da esquerda. No resto, o sentido é outro, como em bomba de efeito retardado.
O que a régua sustenta: a ofensa pessoal sai mais da direita; a acusação e o rótulo político, mais da esquerda; a oposição fala mais duro; e a Câmara esquentou em 2025 e 2026. Ela não mede intenção, nem o que se grita longe do microfone.
Como fizemos
Lemos o texto integral das notas taquigráficas de 116.763 falas: 73.247 de 392 deputados, de 2019 a outubro de 2026, e 43.516 de 63 senadores, de 2011 a 2026. Fontes: dados abertos da Câmara (discursos por deputado) e do Senado (pronunciamentos e seus textos). Fala é o trecho de um orador, separado pelo cabeçalho oficial “O SR.” ou “A SRA.”, com nome, partido e estado. Só conta a fala do próprio parlamentar do acervo.
Repetidas: a mesma fala pode vir em arquivos de dois homônimos. Descartamos 548 repetições, mas só depois de conferir de quem é o cabeçalho. A conta de base do jornal fazia o contrário e perdia falas: as de Maurício Marcon (PL-RS) vinham antes no arquivo de Dionilso Marcon (PT-RS) e quase sumiam. Também passam a contar os cabeçalhos com “PR.” ou “DR.” antes do nome, como o de Marco Feliciano (PL-SP). Com as duas correções, Maurício Marcon tem 269 falas e Marco Feliciano, 108. Erika Hilton tem dois arquivos com o mesmo código da Câmara; só um está no acervo.
Um programa, sem inteligência artificial, procurou as palavras de uma lista escrita antes da conta. A lista inteira. Núcleo, que entra na manchete. Xingamento: vagabundo, canalha, safado, pilantra, cretino, idiota, imbecil, verme, calhorda, patife, vigarista, mau-caráter, nojento, sem-vergonha, lixo, estúpido. Acusação: ladrão, corrupto, genocida, miliciano, traidor. Rótulo: fascista, nazista, esquerdopata, petralha, bolsominion, direitopata. Medidas fora da manchete, por desqualificar sem xingar: mentiroso, covarde, hipócrita, cínico, incompetente, irresponsável, ignorante, falso, desonesto. E, por serem também termo jurídico ou descritivo: bandido, criminoso, assassino, terrorista, golpista, estuprador, pedófilo, ditador, tirano, quadrilha, comunista. Variantes que contam junto: plural e feminino; “canalhice” com “canalha”; “bolsonarete” com “bolsominion”; “fascistoide” com “direitopata”; “neonazista” com “nazista”. “Lixo” só conta depois de “um”, “esse”, “seu”, “é” e parecidos; “falso”, só depois de “é”, “são”, “seu” e parecidos.
A lista do pesquisador contava também “esquerdista” como “esquerdopata”. Tiramos: é palavra que quase sempre descreve (“governo esquerdista”), sai quase só da direita (175 ocorrências contra 5 da esquerda, de 2019 a 2026), e o espelho dela, “bolsonarista” ou “extrema direita”, nunca esteve na lista. Efeito da escolha: com a palavra, a conta tinha 1.944 falas com palavra do núcleo, e não 1.778; fora as falas de xingamento, direita e esquerda empatavam (17,5 e 17,8 por mil); sem ela, ficam em 14,2 e 17,7. O xingamento não muda.
Regra de alvo: a palavra só conta se estiver a até 7 palavras de um nome de político de uma lista, de um tratamento ao colega (você, senhor, Vossa Excelência) ou de governo, partido, campo, Congresso, Judiciário, imprensa ou polícia. Não contam a negação (“não sou ladrão”), a menção (“me chamou de”), o que vem entre aspas, o crime comum (“organização criminosa”, “facção”) e a alusão histórica. Ficaram fora 3.421 ocorrências sem alvo identificado e 838 com alvo estrangeiro ou criminoso, como Hamas, Maduro ou tráfico.
Precisão. O pesquisador sorteou 40 frases do núcleo e achou 28 com insulto ou acusação de fato a político, partido, instituição ou colega. Depois, a redação leu as 297 falas de 2019 a 2026 com palavra de xingamento, no trecho em que a palavra aparece: 178 são xingamento a político, partido, governo, instituição, imprensa ou colega (60%). Saíram, na direita: 65 contra quem comete crime comum, 12 de citação ou relato do que outro disse, 12 contra uma coisa (lei, contrato, estrada, orçamento), 16 com alvo genérico ou o próprio orador, 1 com alvo estrangeiro, 1 de outro orador no mesmo bloco de texto, 1 em negação. Na esquerda: 6 de citação ou relato do que outro disse, 1 contra uma coisa (lei, contrato, estrada, orçamento), 3 com alvo genérico ou o próprio orador, 1 de outro orador no mesmo bloco de texto. Em 23 de agosto de 2023, por exemplo, o grito “Deixa de ser vagabundo, rapaz, seu sem caráter!” está no bloco de texto de Jorge Solla (PT-BA), mas é de Coronel Meira (PL-PE), que o interrompeu; a conta automática o deu à esquerda, e a leitura o tirou. Um conferente releu as falas do bruto, sem ver esta conta, e chegou a 3,9 vezes, entre 3,3 e 4,5. A lista das falas que saíram, com o motivo, está no código da matéria.
Campo é o partido do orador na data da fala, pelo cabeçalho oficial. Esquerda: PT, PSOL, PCdoB, PSB, PDT, Rede e PV. Direita: PL (PR até 2019), PSL, Novo, PP, Republicanos (PRB até 2019), União, DEM, PSC, PTB, Patriota, PRTB, PRD e Missão. Os demais partidos formam o centro, que entra no total mas não na comparação. PP, Republicanos e União contam na direita mesmo quando tiveram ministérios no governo Lula. Campo do governo é o do presidente: Dilma e Lula, esquerda; Temer e Bolsonaro, direita. A Câmara só entra no acervo em 2019; no Senado, os governos de Dilma e Temer têm poucas falas da direita, e boa parte é de Magno Malta.
Grupos: buscamos expressões de ofensa ligadas a orientação sexual, gênero, raça, religião, origem e deficiência, com plural e feminino, e cada fala achada foi lida para separar o uso contra alguém do relato, da denúncia e de outros sentidos. Cada citação entre aspas foi conferida, letra por letra, no texto integral; partido e estado vêm do cabeçalho oficial, e a hora é a do início do discurso na Câmara (o Senado não informa hora). Decisões oficiais vêm das páginas do Conselho de Ética, da Agência Câmara, do STJ e da Assembleia de Minas. Não procuramos os citados.
O que este número não diz
A régua mede palavras, não intenção: ironia, hipérbole e citação mal marcada ficam dentro, e insulto sem palavra da lista (“molusco”, sozinho) fica fora. Por isso a contagem pela palavra é teto, e só o xingamento foi lido frase a frase; acusação e rótulo não foram. A comparação de acusação e rótulo depende da lista: com “esquerdista” dentro, os campos empatam. Poucos falam muito: na direita, quatro deputados somam 59 das 143 falas de xingamento lidas; na esquerda, os quatro que mais aparecem somam 13 das 35. O acervo tem 392 deputados e 63 senadores, não todos; aparte de quem não está nele e grito do plenário ficam de fora. Nota taquigráfica não é gravação: o texto pode ter cortes. A taxa é por fala, e um “pela ordem” curto pesa como um discurso longo. Campo é sigla, não posição de cada parlamentar. A qualificação jurídica (injúria, racismo, homofobia) não é do jornal. O centro não foi lido frase a frase.
Fontes
- Câmara dos Deputados — API de dados abertos, discursos por deputado
- Senado Federal — dados abertos (pronunciamentos de senadores)
- Diário da Câmara dos Deputados — texto de cada discurso citado (links no texto)
- Senado Federal — texto integral dos pronunciamentos citados (links no texto)
- Câmara dos Deputados, Conselho de Ética — Representações (lista oficial; Rep. 3/2023; "não recebeu representações em 2020")
- Câmara dos Deputados, Conselho de Ética — Conselho aprova arquivamento das representações contra Nikolas Ferreira e Carla Zambelli (9/8/2023, 12 votos a 5)
- Agência Câmara — Conselho de Ética arquiva processos contra Carla Zambelli e Nikolas Ferreira (9/8/2023)
- Agência Câmara — Arthur Lira repreende deputado Nikolas Ferreira (8/3/2023)
- Superior Tribunal de Justiça — Suspensa decisão que impedia nomeação do presidente da Fundação Palmares (12/2/2020)
- Assembleia Legislativa de Minas Gerais — Assembleia dá posse a novo governador de Minas (22/3/2026)
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