Desde 2018, a campainha soa em mais da metade dos discursos de senadores; Magno Malta é o recordista
É o toque que o presidente da sessão faz soar. Em todos os pronunciamentos desde 2013, aparece em 28 de cada 100. Quem menos o ouve entrega o discurso por escrito, preside a sessão ou faz falas curtas.
Em 20 de abril de 2017, Renan Calheiros (PMDB-AL) discursava como líder no plenário do Senado. Criticava o Ministério Público pela condução da Operação Lava Jato, segundo o resumo oficial. No meio de uma frase, o taquígrafo anotou um som:
“Inexplicável que estejamos convivendo com o envenenamento da democracia, procedimentos sumários midiáticos,... (Soa a campainha.) O SR. RENAN CALHEIROS (PMDB - AL) – ... sanhas acusatórias, obsessão por destruir um poder eleito e avidez para condenar – já encerro, Srª Presidente, mais um minutinho – antes do processo.”
A frase se partiu ao meio, voltou com reticências e terminou num pedido: “mais um minutinho”.
O som se repete no Senado. Nas notas taquigráficas dos pronunciamentos de 63 senadores, o registro “(Soa a campainha.)” aparece 12.471 vezes desde 2013. Está em 28 de cada 100 textos.
Nos textos com o rótulo “Para discursar”, usado desde 2018, a campainha soa em 53 de cada 100. Dá quase um toque a cada mil palavras.
Em algumas notas, o taquígrafo, servidor que registra o que se diz no plenário, escreve também quem tocou: “(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)”.
A nota registra o som, não o motivo. Ela não diz quanto tempo a fala já durava, nem quanto o orador ainda tinha.
31 toques num só texto
O texto com mais toques é de Magno Malta (PL-ES), de 27 de fevereiro de 2024: 31 registros da campainha.
O resumo oficial descreve o assunto: “Satisfação com a manifestação de apoio ao ex-Presidente Jair Bolsonaro realizada no último domingo, dia 25 de fevereiro de 2024, na cidade de São Paulo (SP).”
Nem todos os toques caem na fala dele. O texto inclui apartes de colegas, e 12 toques soam enquanto eles falam: Rogério Marinho (PL-RN), Eduardo Girão (Novo-CE) e Damares Alves (Republicanos-DF).
Na fala de Magno, são 19.
O último toque soou quando ele respondia a Damares, que dissera ter de ficar em silêncio por um tempo. Magno seguiu na mesma imagem: “Ouvidos que não suportam, com medo de estourar o tímpano. O silêncio de um justo vale mais do que o grito de um injusto.”
Contando só os toques na fala do dono do texto, Magno segue recordista. Em 29 de outubro de 2024, 23 dos 25 toques soaram enquanto ele falava.
Entre os textos com 16 toques ou mais, metade é dele. Os outros são de Cid Gomes (PSB-CE), Irajá (PSD-TO), Jayme Campos (União-MT), com dois, Renan Calheiros (PMDB-AL) e Paulo Paim (PT-RS).
- Magno Malta, 27/2/2024PL-ES31
- Magno Malta, 29/10/2024PL-ES25
- Magno Malta, 8/11/2016PR-ES22
- Magno Malta, 18/2/2014PR-ES21
- Cid Gomes, 1/7/2025PSB-CE20
- Magno Malta, 11/9/2023PL-ES19
- Irajá, 29/4/2025PSD-TO19
- Jayme Campos, 8/11/2022União-MT18
- Renan Calheiros, 25/10/2017PMDB-AL17
- Paulo Paim, 22/3/2019PT-RS16
- Magno Malta, 21/3/2023PL-ES16
- Jayme Campos, 30/4/2025União-MT16
Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas de 19.075 pronunciamentos de 63 senadores da base do Aparte, de 2013 a setembro de 2026 (API de dados abertos). Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)” no texto. Cálculo do Aparte.
Ver dados
| Texto | Toques | |
|---|---|---|
| Textos | Magno Malta, 27/2/2024 PL-ES | 31 |
| Textos | Magno Malta, 29/10/2024 PL-ES | 25 |
| Textos | Magno Malta, 8/11/2016 PR-ES | 22 |
| Textos | Magno Malta, 18/2/2014 PR-ES | 21 |
| Textos | Cid Gomes, 1/7/2025 PSB-CE | 20 |
| Textos | Magno Malta, 11/9/2023 PL-ES | 19 |
| Textos | Irajá, 29/4/2025 PSD-TO | 19 |
| Textos | Jayme Campos, 8/11/2022 União-MT | 18 |
| Textos | Renan Calheiros, 25/10/2017 PMDB-AL | 17 |
| Textos | Paulo Paim, 22/3/2019 PT-RS | 16 |
| Textos | Magno Malta, 21/3/2023 PL-ES | 16 |
| Textos | Jayme Campos, 30/4/2025 União-MT | 16 |
Só mais um minuto
Quando o som toca, a maioria segue em frente sem falar dele. Em só 8,6% dos toques, uma frase do trecho seguinte fala de tempo. O trecho vai até 400 caracteres depois do toque, e a palavra mais usada é “concluir”.
Em 11/6/2013, Magno Malta (PR-ES) anunciou o fim, ouviu a campainha e pediu mais: “Eu quero encerrar meu pronunciamento. (Soa a campainha.) O SR. MAGNO MALTA (Bloco/PR - ES) - Dê-me só um minuto, Sr. Presidente, em nome do pessoal lá de Curitiba, que fez uma marcha para Jesus, com mais de 100 mil pessoas, uma marcha maravilhosa.”
Paulo Paim (PT-RS), em 15/5/2013: “Como eu sempre digo: direitos humanos em primeiro lugar. (Soa a campainha.) O SR. PAULO PAIM (Bloco/PT - RS) - Por fim, Sr. Presidente, nesses últimos dois minutos, eu só quero fazer um registro.”
Daniella Ribeiro (PSD-PB) falava de violência contra a mulher em 10/8/2023 quando o som tocou. Depois do toque, disse: “Meus dois minutos ainda, graças a Deus.”
Quem mais ouve
Em proporção, quem mais ouve a campainha é Márcio Bittar (PL-AC). Ela soa em 68 de cada 100 textos dele.
Depois vêm Plínio Valério (PSDB-AM), Humberto Costa (PT-PE) e Cleitinho (Republicanos-MG). Os três passam de 50%.
Em números absolutos, ninguém chega perto de Paulo Paim (PT-RS). São 2.295 toques nas notas dele, o maior total da base.
Paim também é quem mais fala: tem 11 de cada 100 textos da base.
O que une os mais tocados é o tamanho da fala. Metade dos textos com campainha passa de 1.251 palavras. Entre os falados sem campainha, metade tem até 324.
- Pronuncia o seguinte discurso62,2%
- Para discursar52,9%
- Pela Liderança40,6%
- Para discutir19,7%
- Pela ordem16,8%
- Para proferir parecer10,0%
- Como Relator9,7%
- Para orientar a bancada8,2%
- Fala da Presidência1,9%
- Sem apanhamento taquigráfico0,0%
Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas de 19.075 pronunciamentos de 63 senadores da base do Aparte, de 2013 a setembro de 2026 (API de dados abertos). Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)” no texto. Cálculo do Aparte. Ficam fora os textos sem tipo de fala no cabeçalho.
Ver dados
| Tipo de fala | % com campainha | |
|---|---|---|
| Tipo de fala | Pronuncia o seguinte discurso | 62,2 |
| Tipo de fala | Para discursar | 52,9 |
| Tipo de fala | Pela Liderança | 40,6 |
| Tipo de fala | Para discutir | 19,7 |
| Tipo de fala | Pela ordem | 16,8 |
| Tipo de fala | Para proferir parecer | 10,0 |
| Tipo de fala | Como Relator | 9,7 |
| Tipo de fala | Para orientar a bancada | 8,2 |
| Tipo de fala | Fala da Presidência | 1,9 |
| Tipo de fala | Sem apanhamento taquigráfico | 0,0 |
Quem quase não ouve
Na outra ponta está Ciro Nogueira (PP-PI). São 189 textos e 4 toques.
A explicação está no cabeçalho. Em 117 textos dele, o cabeçalho traz “Sem apanhamento taquigráfico”: o discurso foi entregue por escrito, sem fala no plenário.
Nos 332 textos assim da base, a campainha não aparece nenhuma vez.
Renan Calheiros (MDB-AL) ouve a campainha em 7,5% dos textos. Davi Alcolumbre (União-AP), em 9%.
Os dois presidiram o Senado no período, e as notas mostram isso. Em 418 dos 641 textos de Renan, quem fala é “O SR. PRESIDENTE”: ele mesmo, conduzindo a sessão.
Com Davi, são 238 de 324.
Sem as falas na Presidência, a campainha volta: aparece em 18 de cada 100 textos de Renan e em 14 de cada 100 dos de Davi.
Hamilton Mourão (Republicanos-RS) faz falas curtas: metade dos textos dele tem até 70 palavras. A campainha aparece em 6,9% deles.
- Márcio BittarPL-AC68,4%
- Plínio ValérioPSDB-AM58,7%
- Humberto CostaPT-PE53,6%
- CleitinhoRepublicanos-MG50,6%
- Magno MaltaPL-ES45,7%
- Paulo PaimPT-RS44,1%
- Ciro NogueiraPP-PI4,2%
- Hamilton MourãoRepublicanos-RS6,9%
- Renan CalheirosMDB-AL7,5%
- Davi AlcolumbreUnião-AP9,0%
- Professora DorinhaUnião-TO11,7%
- Nelsinho TradPSD-MS12,6%
Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas de 19.075 pronunciamentos de 63 senadores da base do Aparte, de 2013 a setembro de 2026 (API de dados abertos). Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)” no texto. Cálculo do Aparte. Textos falados: sem os entregues por escrito.
Ver dados
| Grupo | Senador | % dos textos falados |
|---|---|---|
| Mais | Márcio Bittar PL-AC | 68,4 |
| Mais | Plínio Valério PSDB-AM | 58,7 |
| Mais | Humberto Costa PT-PE | 53,6 |
| Mais | Cleitinho Republicanos-MG | 50,6 |
| Mais | Magno Malta PL-ES | 45,7 |
| Mais | Paulo Paim PT-RS | 44,1 |
| Menos | Ciro Nogueira PP-PI | 4,2 |
| Menos | Hamilton Mourão Republicanos-RS | 6,9 |
| Menos | Renan Calheiros MDB-AL | 7,5 |
| Menos | Davi Alcolumbre União-AP | 9,0 |
| Menos | Professora Dorinha União-TO | 11,7 |
| Menos | Nelsinho Trad PSD-MS | 12,6 |
Os anos do silêncio
A rubrica quase não aparece nas notas de 2011 e 2012. Por isso, a série começa em 2013.
Naquele ano, a campainha estava em 24 de cada 100 textos. Em 2017, em 49.
Depois veio a queda. Em 2021, só 14 de cada 100 textos tinham campainha.
Em março de 2020, o Senado criou um sistema para votar a distância durante a pandemia. A queda coincide com esse período, mas a conta não prova que seja a causa.
Desde 2023, nos textos “Para discursar”, a taxa ficou entre 54% e 56%.
Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas de 19.075 pronunciamentos de 63 senadores da base do Aparte, de 2013 a setembro de 2026 (API de dados abertos). Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)” no texto. Cálculo do Aparte.
Ver dados
| Ano | Textos | Com campainha | % com campainha | Toques |
|---|---|---|---|---|
| 2013 | 777 | 185 | 23,8 | 454 |
| 2014 | 393 | 101 | 25,7 | 273 |
| 2015 | 448 | 155 | 34,6 | 431 |
| 2016 | 492 | 184 | 37,4 | 470 |
| 2017 | 469 | 228 | 48,6 | 709 |
| 2018 | 315 | 151 | 47,9 | 393 |
| 2019 | 1.785 | 736 | 41,2 | 1.832 |
| 2020 | 435 | 77 | 17,7 | 145 |
| 2021 | 2.167 | 298 | 13,8 | 549 |
| 2022 | 2.193 | 521 | 23,8 | 1.029 |
| 2023 | 3.142 | 832 | 26,5 | 2.035 |
| 2024 | 2.841 | 751 | 26,4 | 1.780 |
| 2025 | 2.371 | 724 | 30,5 | 1.668 |
| 2026 | 1.247 | 313 | 25,1 | 703 |
E na Câmara?
Nas transcrições da Câmara, o som quase não aparece. A palavra “campainha” está em 170 falas de deputados, desde 2019.
É menos de 3 em cada mil falas de deputados no acervo.
Por lá, aparece mais outra rubrica: “(Desligamento automático do microfone.)”. Ela está em 2.313 falas.
As duas Casas anotam de jeitos diferentes. Por isso, o Aparte não compara quantas vezes cada uma interrompe os seus oradores.
No Senado, o som segue nas notas. Em 2026, até setembro, a campainha já tinha soado 703 vezes nos textos da base.
Como fizemos
Lemos, por programa, as notas taquigráficas (o texto integral) de 19.985 pronunciamentos de 63 senadores, na API de dados abertos do Senado, de 2011 a setembro de 2026. A série começa em 2013, com 19.075 textos, porque antes a rubrica quase não aparece.
Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)”, ou “faz soar a campainha”, dentro do texto. O tipo de fala vem do cabeçalho do orador: “Para discursar”, “Pela ordem”, “Pela Liderança” e outros. Os textos com “Sem apanhamento taquigráfico” foram entregues por escrito e ficam fora dos textos falados.
Por senador, só entram os 48 com 100 textos ou mais desde 2013, 50 deles falados. A taxa é a parte dos textos falados com pelo menos um toque.
As falas de Renan Calheiros e de Davi Alcolumbre na Presidência foram contadas nesta matéria: são os textos deles que começam com “O SR. PRESIDENTE”, seguido do próprio nome. Antes, conferimos que a mesma regra devolve a taxa da tabela.
Frase sobre tempo: entre as três primeiras frases dos 400 caracteres que vêm depois do toque, uma de 4 a 40 palavras, que não comece por parêntese e traga conclu- (concluir, conclusão), termin-, encerr-, minuto, minutinho, tolerância, generosidade, “mais um pouco”, segundos, finalizar, finalizo, “já vou”, prorroga- ou tempo. A frase pode ser de outra pessoa.
Quem está com a palavra na hora do toque: o último cabeçalho de orador antes da rubrica (“O SR. …” ou “A SRA. …”). Assim separamos, no texto de Magno Malta de 27/2/2024, os toques na fala dele e os toques nos apartes.
Câmara: buscamos “campainha” e “Desligamento automático do microfone” nas transcrições de 71.606 falas de deputados com texto na API da Câmara, de 2019 a 2026.
Partido: nas citações e nos textos com 16 toques ou mais, o da data; nos demais casos, o do pronunciamento mais recente do senador.
O que este número não diz
A nota registra o som, não o tempo. O dado não traz a duração da fala nem o limite de cada tipo de fala, e por isso não dá para dizer que alguém passou do tempo. O texto de um pronunciamento inclui apartes e falas de quem preside: a campainha pode soar para outra pessoa. Antes de 2013, a rubrica quase não aparece; o rótulo “Para discursar” só existe desde 2018, e a curva por ano mistura tipos de fala. A base tem 64 senadores, não os 81, e Paulo Paim sozinho tem 11% dos textos. 1.604 textos sem cabeçalho reconhecido ficam fora da figura por tipo de fala. A Câmara anota de outro jeito: as menções à campainha lá não provam que ela não exista; e a base da Câmara também é amostra, com 411 deputados do acervo, não os 513. A queda de 2020 e 2021 coincide com a pandemia, mas a causa não está no dado.
Fontes
- Senado Federal — pronunciamento de Renan Calheiros, 20/4/2017
- Senado Federal — pronunciamento de Magno Malta, 27/2/2024 (o recorde)
- Senado Federal — pronunciamento de Magno Malta, 11/6/2013
- Senado Federal — pronunciamento de Paulo Paim, 15/5/2013
- Senado Federal — pronunciamento de Daniella Ribeiro, 10/8/2023
- Senado Federal — documentação da API de dados abertos (pronunciamentos e textos)
- Câmara dos Deputados — API de dados abertos, discursos por deputado
- Agência Senado — Senado institui sistema para votação remota durante emergência sanitária (17/3/2020)
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