Pular para o conteúdo

Uma seção do letramento.org

AparteO Congresso pelo que se diz na tribuna
Quarta-feira, 14 de outubro de 2026 · Edição nº 6
← Curiosidades
Senado · CuriosidadeSenado

Desde 2018, a campainha soa em mais da metade dos discursos de senadores; Magno Malta é o recordista

É o toque que o presidente da sessão faz soar. Em todos os pronunciamentos desde 2013, aparece em 28 de cada 100. Quem menos o ouve entrega o discurso por escrito, preside a sessão ou faz falas curtas.

Mesa de pesquisa e repórter do Senado

Em 20 de abril de 2017, Renan Calheiros (PMDB-AL) discursava como líder no plenário do Senado. Criticava o Ministério Público pela condução da Operação Lava Jato, segundo o resumo oficial. No meio de uma frase, o taquígrafo anotou um som:

“Inexplicável que estejamos convivendo com o envenenamento da democracia, procedimentos sumários midiáticos,... (Soa a campainha.) O SR. RENAN CALHEIROS (PMDB - AL) – ... sanhas acusatórias, obsessão por destruir um poder eleito e avidez para condenar – já encerro, Srª Presidente, mais um minutinho – antes do processo.”

A frase se partiu ao meio, voltou com reticências e terminou num pedido: “mais um minutinho”.

O som se repete no Senado. Nas notas taquigráficas dos pronunciamentos de 63 senadores, o registro “(Soa a campainha.)” aparece 12.471 vezes desde 2013. Está em 28 de cada 100 textos.

Nos textos com o rótulo “Para discursar”, usado desde 2018, a campainha soa em 53 de cada 100. Dá quase um toque a cada mil palavras.

Em algumas notas, o taquígrafo, servidor que registra o que se diz no plenário, escreve também quem tocou: “(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)”.

A nota registra o som, não o motivo. Ela não diz quanto tempo a fala já durava, nem quanto o orador ainda tinha.

31 toques num só texto

O texto com mais toques é de Magno Malta (PL-ES), de 27 de fevereiro de 2024: 31 registros da campainha.

O resumo oficial descreve o assunto: “Satisfação com a manifestação de apoio ao ex-Presidente Jair Bolsonaro realizada no último domingo, dia 25 de fevereiro de 2024, na cidade de São Paulo (SP).”

Nem todos os toques caem na fala dele. O texto inclui apartes de colegas, e 12 toques soam enquanto eles falam: Rogério Marinho (PL-RN), Eduardo Girão (Novo-CE) e Damares Alves (Republicanos-DF).

Na fala de Magno, são 19.

O último toque soou quando ele respondia a Damares, que dissera ter de ficar em silêncio por um tempo. Magno seguiu na mesma imagem: “Ouvidos que não suportam, com medo de estourar o tímpano. O silêncio de um justo vale mais do que o grito de um injusto.”

Contando só os toques na fala do dono do texto, Magno segue recordista. Em 29 de outubro de 2024, 23 dos 25 toques soaram enquanto ele falava.

Entre os textos com 16 toques ou mais, metade é dele. Os outros são de Cid Gomes (PSB-CE), Irajá (PSD-TO), Jayme Campos (União-MT), com dois, Renan Calheiros (PMDB-AL) e Paulo Paim (PT-RS).

Os 12 textos com 16 toques ou maisRegistros da campainha num mesmo texto de pronunciamento, que inclui apartes de colegas; na dica, quantos caem na fala do dono do texto. Os três últimos empatam com 16. Partido na data.
  1. Magno Malta, 27/2/2024PL-ES31
  2. Magno Malta, 29/10/2024PL-ES25
  3. Magno Malta, 8/11/2016PR-ES22
  4. Magno Malta, 18/2/2014PR-ES21
  5. Cid Gomes, 1/7/2025PSB-CE20
  6. Magno Malta, 11/9/2023PL-ES19
  7. Irajá, 29/4/2025PSD-TO19
  8. Jayme Campos, 8/11/2022União-MT18
  9. Renan Calheiros, 25/10/2017PMDB-AL17
  10. Paulo Paim, 22/3/2019PT-RS16
  11. Magno Malta, 21/3/2023PL-ES16
  12. Jayme Campos, 30/4/2025União-MT16

Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas de 19.075 pronunciamentos de 63 senadores da base do Aparte, de 2013 a setembro de 2026 (API de dados abertos). Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)” no texto. Cálculo do Aparte.

Ver dados
TextoToques
TextosMagno Malta, 27/2/2024 PL-ES31
TextosMagno Malta, 29/10/2024 PL-ES25
TextosMagno Malta, 8/11/2016 PR-ES22
TextosMagno Malta, 18/2/2014 PR-ES21
TextosCid Gomes, 1/7/2025 PSB-CE20
TextosMagno Malta, 11/9/2023 PL-ES19
TextosIrajá, 29/4/2025 PSD-TO19
TextosJayme Campos, 8/11/2022 União-MT18
TextosRenan Calheiros, 25/10/2017 PMDB-AL17
TextosPaulo Paim, 22/3/2019 PT-RS16
TextosMagno Malta, 21/3/2023 PL-ES16
TextosJayme Campos, 30/4/2025 União-MT16

Só mais um minuto

Quando o som toca, a maioria segue em frente sem falar dele. Em só 8,6% dos toques, uma frase do trecho seguinte fala de tempo. O trecho vai até 400 caracteres depois do toque, e a palavra mais usada é “concluir”.

Em 11/6/2013, Magno Malta (PR-ES) anunciou o fim, ouviu a campainha e pediu mais: “Eu quero encerrar meu pronunciamento. (Soa a campainha.) O SR. MAGNO MALTA (Bloco/PR - ES) - Dê-me só um minuto, Sr. Presidente, em nome do pessoal lá de Curitiba, que fez uma marcha para Jesus, com mais de 100 mil pessoas, uma marcha maravilhosa.”

Paulo Paim (PT-RS), em 15/5/2013: “Como eu sempre digo: direitos humanos em primeiro lugar. (Soa a campainha.) O SR. PAULO PAIM (Bloco/PT - RS) - Por fim, Sr. Presidente, nesses últimos dois minutos, eu só quero fazer um registro.”

Daniella Ribeiro (PSD-PB) falava de violência contra a mulher em 10/8/2023 quando o som tocou. Depois do toque, disse: “Meus dois minutos ainda, graças a Deus.”

Quem mais ouve

Em proporção, quem mais ouve a campainha é Márcio Bittar (PL-AC). Ela soa em 68 de cada 100 textos dele.

Depois vêm Plínio Valério (PSDB-AM), Humberto Costa (PT-PE) e Cleitinho (Republicanos-MG). Os três passam de 50%.

Em números absolutos, ninguém chega perto de Paulo Paim (PT-RS). São 2.295 toques nas notas dele, o maior total da base.

Paim também é quem mais fala: tem 11 de cada 100 textos da base.

O que une os mais tocados é o tamanho da fala. Metade dos textos com campainha passa de 1.251 palavras. Entre os falados sem campainha, metade tem até 324.

Onde a campainha tocaParte dos textos de cada tipo de fala com pelo menos um toque, em %. O tipo vem do cabeçalho do orador.
  1. Pronuncia o seguinte discurso62,2%
  2. Para discursar52,9%
  3. Pela Liderança40,6%
  4. Para discutir19,7%
  5. Pela ordem16,8%
  6. Para proferir parecer10,0%
  7. Como Relator9,7%
  8. Para orientar a bancada8,2%
  9. Fala da Presidência1,9%
  10. Sem apanhamento taquigráfico0,0%

Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas de 19.075 pronunciamentos de 63 senadores da base do Aparte, de 2013 a setembro de 2026 (API de dados abertos). Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)” no texto. Cálculo do Aparte. Ficam fora os textos sem tipo de fala no cabeçalho.

Ver dados
Tipo de fala% com campainha
Tipo de falaPronuncia o seguinte discurso62,2
Tipo de falaPara discursar52,9
Tipo de falaPela Liderança40,6
Tipo de falaPara discutir19,7
Tipo de falaPela ordem16,8
Tipo de falaPara proferir parecer10,0
Tipo de falaComo Relator9,7
Tipo de falaPara orientar a bancada8,2
Tipo de falaFala da Presidência1,9
Tipo de falaSem apanhamento taquigráfico0,0

Quem quase não ouve

Na outra ponta está Ciro Nogueira (PP-PI). São 189 textos e 4 toques.

A explicação está no cabeçalho. Em 117 textos dele, o cabeçalho traz “Sem apanhamento taquigráfico”: o discurso foi entregue por escrito, sem fala no plenário.

Nos 332 textos assim da base, a campainha não aparece nenhuma vez.

Renan Calheiros (MDB-AL) ouve a campainha em 7,5% dos textos. Davi Alcolumbre (União-AP), em 9%.

Os dois presidiram o Senado no período, e as notas mostram isso. Em 418 dos 641 textos de Renan, quem fala é “O SR. PRESIDENTE”: ele mesmo, conduzindo a sessão.

Com Davi, são 238 de 324.

Sem as falas na Presidência, a campainha volta: aparece em 18 de cada 100 textos de Renan e em 14 de cada 100 dos de Davi.

Hamilton Mourão (Republicanos-RS) faz falas curtas: metade dos textos dele tem até 70 palavras. A campainha aparece em 6,9% deles.

Quem mais e quem menos ouve a campainhaParte dos textos falados de cada senador com pelo menos um toque, em %. Só os 48 senadores com 100 textos ou mais. Partido do pronunciamento mais recente. Toque em “Mais” ou “Menos”.
  1. Márcio BittarPL-AC68,4%
  2. Plínio ValérioPSDB-AM58,7%
  3. Humberto CostaPT-PE53,6%
  4. CleitinhoRepublicanos-MG50,6%
  5. Magno MaltaPL-ES45,7%
  6. Paulo PaimPT-RS44,1%

Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas de 19.075 pronunciamentos de 63 senadores da base do Aparte, de 2013 a setembro de 2026 (API de dados abertos). Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)” no texto. Cálculo do Aparte. Textos falados: sem os entregues por escrito.

Ver dados
GrupoSenador% dos textos falados
MaisMárcio Bittar PL-AC68,4
MaisPlínio Valério PSDB-AM58,7
MaisHumberto Costa PT-PE53,6
MaisCleitinho Republicanos-MG50,6
MaisMagno Malta PL-ES45,7
MaisPaulo Paim PT-RS44,1
MenosCiro Nogueira PP-PI4,2
MenosHamilton Mourão Republicanos-RS6,9
MenosRenan Calheiros MDB-AL7,5
MenosDavi Alcolumbre União-AP9,0
MenosProfessora Dorinha União-TO11,7
MenosNelsinho Trad PSD-MS12,6

Os anos do silêncio

A rubrica quase não aparece nas notas de 2011 e 2012. Por isso, a série começa em 2013.

Naquele ano, a campainha estava em 24 de cada 100 textos. Em 2017, em 49.

Depois veio a queda. Em 2021, só 14 de cada 100 textos tinham campainha.

Em março de 2020, o Senado criou um sistema para votar a distância durante a pandemia. A queda coincide com esse período, mas a conta não prova que seja a causa.

Desde 2023, nos textos “Para discursar”, a taxa ficou entre 54% e 56%.

A campainha nas notas, ano a anoParte dos textos de pronunciamentos com pelo menos um toque, em %, com todos os tipos de fala.

Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas de 19.075 pronunciamentos de 63 senadores da base do Aparte, de 2013 a setembro de 2026 (API de dados abertos). Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)” no texto. Cálculo do Aparte.

Ver dados
AnoTextosCom campainha% com campainhaToques
201377718523,8454
201439310125,7273
201544815534,6431
201649218437,4470
201746922848,6709
201831515147,9393
20191.78573641,21.832
20204357717,7145
20212.16729813,8549
20222.19352123,81.029
20233.14283226,52.035
20242.84175126,41.780
20252.37172430,51.668
20261.24731325,1703

E na Câmara?

Nas transcrições da Câmara, o som quase não aparece. A palavra “campainha” está em 170 falas de deputados, desde 2019.

É menos de 3 em cada mil falas de deputados no acervo.

Por lá, aparece mais outra rubrica: “(Desligamento automático do microfone.)”. Ela está em 2.313 falas.

As duas Casas anotam de jeitos diferentes. Por isso, o Aparte não compara quantas vezes cada uma interrompe os seus oradores.

No Senado, o som segue nas notas. Em 2026, até setembro, a campainha já tinha soado 703 vezes nos textos da base.

Como fizemos

Lemos, por programa, as notas taquigráficas (o texto integral) de 19.985 pronunciamentos de 63 senadores, na API de dados abertos do Senado, de 2011 a setembro de 2026. A série começa em 2013, com 19.075 textos, porque antes a rubrica quase não aparece.

Um toque é cada registro “(Soa a campainha.)”, ou “faz soar a campainha”, dentro do texto. O tipo de fala vem do cabeçalho do orador: “Para discursar”, “Pela ordem”, “Pela Liderança” e outros. Os textos com “Sem apanhamento taquigráfico” foram entregues por escrito e ficam fora dos textos falados.

Por senador, só entram os 48 com 100 textos ou mais desde 2013, 50 deles falados. A taxa é a parte dos textos falados com pelo menos um toque.

As falas de Renan Calheiros e de Davi Alcolumbre na Presidência foram contadas nesta matéria: são os textos deles que começam com “O SR. PRESIDENTE”, seguido do próprio nome. Antes, conferimos que a mesma regra devolve a taxa da tabela.

Frase sobre tempo: entre as três primeiras frases dos 400 caracteres que vêm depois do toque, uma de 4 a 40 palavras, que não comece por parêntese e traga conclu- (concluir, conclusão), termin-, encerr-, minuto, minutinho, tolerância, generosidade, “mais um pouco”, segundos, finalizar, finalizo, “já vou”, prorroga- ou tempo. A frase pode ser de outra pessoa.

Quem está com a palavra na hora do toque: o último cabeçalho de orador antes da rubrica (“O SR. …” ou “A SRA. …”). Assim separamos, no texto de Magno Malta de 27/2/2024, os toques na fala dele e os toques nos apartes.

Câmara: buscamos “campainha” e “Desligamento automático do microfone” nas transcrições de 71.606 falas de deputados com texto na API da Câmara, de 2019 a 2026.

Partido: nas citações e nos textos com 16 toques ou mais, o da data; nos demais casos, o do pronunciamento mais recente do senador.

O que este número não diz

A nota registra o som, não o tempo. O dado não traz a duração da fala nem o limite de cada tipo de fala, e por isso não dá para dizer que alguém passou do tempo. O texto de um pronunciamento inclui apartes e falas de quem preside: a campainha pode soar para outra pessoa. Antes de 2013, a rubrica quase não aparece; o rótulo “Para discursar” só existe desde 2018, e a curva por ano mistura tipos de fala. A base tem 64 senadores, não os 81, e Paulo Paim sozinho tem 11% dos textos. 1.604 textos sem cabeçalho reconhecido ficam fora da figura por tipo de fala. A Câmara anota de outro jeito: as menções à campainha lá não provam que ela não exista; e a base da Câmara também é amostra, com 411 deputados do acervo, não os 513. A queda de 2020 e 2021 coincide com a pandemia, mas a causa não está no dado.

Fontes

  1. Senado Federal — pronunciamento de Renan Calheiros, 20/4/2017
  2. Senado Federal — pronunciamento de Magno Malta, 27/2/2024 (o recorde)
  3. Senado Federal — pronunciamento de Magno Malta, 11/6/2013
  4. Senado Federal — pronunciamento de Paulo Paim, 15/5/2013
  5. Senado Federal — pronunciamento de Daniella Ribeiro, 10/8/2023
  6. Senado Federal — documentação da API de dados abertos (pronunciamentos e textos)
  7. Câmara dos Deputados — API de dados abertos, discursos por deputado
  8. Agência Senado — Senado institui sistema para votação remota durante emergência sanitária (17/3/2020)

Converse com a redação

Achou um erro, tem uma dúvida, quer mais desta história? Escreva. A redação lê tudo e responde aqui, em público. Comentário e resposta passam por triagem e levam até cerca de 1 hora para aparecer. Erro que procede vira errata nesta página. As regras do balcão.

Até 1.500 caracteres. Não publicamos insulto, dado pessoal nem propaganda.

O que os leitores disseram

Abrindo o balcão…

    Mais do Aparte