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AparteO Congresso pelo que se diz na tribuna
Quarta-feira, 14 de outubro de 2026 · Edição nº 6
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Senado · ReportagemSenado

A deputada que disse “Deixem a medicina com os médicos” declarou voto em Flávio na sessão do Dia do Médico

No Senado, Carla Dickson falou do dia 25, disse que a classe médica não podia se omitir e pediu: “Deixem a medicina com os médicos. Política fica com os políticos de verdade”, “porque nós precisamos varrer do Brasil a politicagem que reina hoje em dia”. Depois, declarou voto em Flávio Bolsonaro. Quem presidia respondeu: “eu também sou 22”.

Reportagem · Senado

Era uma sessão para dar parabéns. Às 10h08 de 14 de outubro, no plenário do Senado, quem presidia abriu os trabalhos dizendo que a sessão especial era “destinada a celebrar o Dia do Médico”. É para isso que o regimento do Senado reserva esse tipo de sessão: ela se realiza “exclusivamente para comemoração ou homenagem”. Quem presidia era Dr. Hiran (PP-RR), que não disputou a eleição e tem mandato até 2031, oftalmologista e presidente da frente de parlamentares da medicina no Congresso. No plenário, presidentes de conselhos, associações e sociedades de especialidade, que ele foi saudando um a um.

Às 11h16, ele chamou à tribuna uma colega de especialidade, a deputada Carla Dickson (PL-RN), que teve 67.632 votos e ficou como suplente no Rio Grande do Norte. Ela tinha três minutos, e no fim admitiu: “eu acho que eu passei dos tais três minutos”. No meio, disse a frase que dá nome a esta reportagem: “Deixem a medicina com os médicos. Política fica com os políticos de verdade”. Houve palmas, e ela completou: “porque nós precisamos varrer do Brasil a politicagem que reina hoje em dia”.

As notas taquigráficas, o registro oficial palavra por palavra do que se diz no plenário, anotam as palmas no meio da frase. E anotam o resto do discurso, que é onde o argumento começa a ceder.

Antes do pedido, o dia 25

O pedido de deixar a medicina com os médicos não veio sozinho. Ele vem no fim de um parágrafo das notas que começa pela eleição: “Dia 25 de outubro vai ser um dia crucial para o Brasil”, disse a deputada. Na frase seguinte, afirmou que “a classe médica não pode se omitir em varrer de vez aqueles que querem nos destruir”, e reclamou de quem quis “politizar o que pertence ao profissional de medicina”, como, segundo ela, “aconteceu na pandemia”. A frase termina aí; o pedido de deixar a medicina com os médicos vem na seguinte.

Dia 25 de outubro é o dia do 2º turno. Nesse trecho do discurso, o verbo “varrer” aparece três vezes: duas no que a classe médica não pode se omitir de fazer, uma para a “politicagem que reina hoje em dia”. Nomes, a deputada não deu. O que ela pôs do outro lado dos “políticos de verdade” foi essa politicagem.

Em seguida, pediu que se combatessem as fake news e falou do governo: “O Governo está desesperado - o atual Governo. Se depender de mim, ele nunca mais vai voltar”. As notas registram palmas. Depois, veio o diagnóstico, na língua do consultório: “Câncer se tira com cirurgia e muita quimioterapia, e não é só o tumor principal que nós precisamos tirar, que é o PT”. E seguiu: “Nós precisamos tirar também as metástases: PV, Rede, essas porcarias todas aí”. Nas notas, o que vem em seguida é a campainha do tempo.

Às 11h24, chegou ao voto: “Já declaro aqui - não sei se vão cassar mandato, não tenho mandato mesmo -: meu voto é em Flávio Bolsonaro”. Flávio Bolsonaro (PL), que chegou em primeiro no 1º turno e disputa o 2º no dia 25, é o candidato do partido dela a presidente. As notas registram manifestação da plateia. Ela fechou: “liberte o Brasil do PT”, e “Parabéns, colegas médicos, mas não dá para continuar mais com o PT”.

Dez políticos entre os 19 oradores

O pedido de deixar a política com “os políticos de verdade” foi feito por uma deputada no fim do segundo mandato. Dos 19 oradores da sessão, dez eram políticos com mandato ou eleitos em outubro. Os outros nove falaram como convidados da homenagem, entre eles o presidente do Conselho Federal de Medicina e dirigentes de outras entidades médicas, de residentes e de estudantes.

Entre os políticos, mais de um falou da passagem da medicina para a política. Dr. Frederico (PL-MG), reeleito deputado federal por Minas Gerais, contou o próprio caminho “antes de sonhar em ser político” e terminou dizendo: “só estou aqui por ser médico”. Antes, já tinha avisado: “faltam poucos dias para a mudança”. Marcos Vinicius (PL-MG), eleito deputado federal por Minas Gerais em outubro, foi direto: “me tornei político justamente pela necessidade da política”. Allan Garcês (PP-MA), que não se reelegeu deputado pelo Maranhão, disse três vezes, com pequenas variações: “só um médico para defender um outro médico”.

O 22 da Mesa

Quando a deputada terminou, quem falou foi a Mesa. Dr. Hiran ficou sem som, e o que disse nesse intervalo está nas notas: “Cadê meu som? Estão cortando até o meu som”. E, logo depois, “Está censurado”. A taquigrafia marca “fora do microfone”; não diz por que o som caiu, e esta reportagem também não sabe.

Na linha seguinte das notas, ele diz “pode colocar um pouco mais alto” e se dirige à oradora: “Carla, parabéns pela sua fala”. E: “Aqui é a Casa do povo”. Seguiu: “Eu acho que 100% das pessoas que estão aqui - cidadãos, médicos - sabem o quão nocivo foi este Governo para atrasar nossas pautas”. Sobre a proficiência médica, pela qual a frente lutou: “Ficou aqui nesta Casa... Não anda”. Sobre as cotas na residência: “nós somos contra essa excrescência que é a questão de cotas em residência médica”, e “A meritocracia ficou jogada no lixo”. E terminou: “Então, minha amiga, eu quero dizer para você que eu também sou 22. É isso!” Vinte e dois é o número de Flávio Bolsonaro na urna. As notas registram manifestação da plateia e palmas, e o presidente completou: “Que fique bem claro!” E pediu: “E vamos nos manter mobilizados”.

Não era a primeira vez na manhã que a Mesa falava de voto, nem que lembrava a Casa do povo. Às 10h32, ao passar a palavra à senadora Tereza Cristina (PP-MS), que não disputou a eleição e tem mandato até 2031, Dr. Hiran pediu: “Depois do seu discurso, diga em quem você vai votar para Presidente, por favor, está bom?” Ela perguntou se podia. Ele respondeu “Pode, claro. Nós podemos tudo aqui” e, em seguida, “Esta aqui é a Casa do povo”. No discurso que fez depois, a senadora não disse em quem votaria.

O orador seguinte a Carla Dickson, Marcos Vinicius, tomou a fala dela como deixa: “Como a Deputada Carla falou, a gente tem que se posicionar”. E falou de “daqui a 11 dias”, a data do 2º turno.

Depois dele, mais dois eleitos em outubro levaram o 2º turno à tribuna. Às 11h32, Raíssa Soares (PL-BA), eleita deputada federal pela Bahia em outubro, disse que “nós somos influenciadores” e que os médicos conseguem mudar “a visão de cada um”, “para saber que o nosso futuro não tenha outra opção se não for Flávio Bolsonaro”. Em seguida, Dr. Jaime Gazola (Podemos-RO), eleito deputado federal por Rondônia em outubro, fechou a fala com “Que Deus abençoe o Brasil no dia 25 com o Flávio Bolsonaro”. Nas notas da sessão inteira, porém, a frase dos “políticos de verdade” aparece uma vez só, na fala de Carla Dickson.

O discurso de Carla Dickson, frase a frase
  1. 11h16Carla Dickson sobe à tribuna e se despede: “Estou encerrando a minha segunda legislatura”. “Infelizmente, não me elegi”.
  2. 11h20Fala do dia 25 e diz que a classe médica “não pode se omitir”. Nas frases seguintes, pede que se deixe “a medicina com os médicos” e a política com “os políticos de verdade”. As notas registram palmas, e ela completa: “porque nós precisamos varrer do Brasil a politicagem que reina hoje em dia”.
  3. 11h20Compara o PT a um tumor e chama de “metástases: PV, Rede, essas porcarias todas aí” os outros dois partidos.
  4. 11h24Anuncia: “meu voto é em Flávio Bolsonaro”. As notas registram manifestação da plateia.
  5. 11h24Dr. Hiran, que presidia, fica sem som: “Está censurado”. Depois, diz: “eu também sou 22. É isso!”
  6. 11h28O orador seguinte, Marcos Vinicius: “Como a Deputada Carla falou, a gente tem que se posicionar”.

Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas revisadas da sessão especial de 14/10/2026. A hora é a do bloco de 4 minutos das notas em que a frase está; não foi medida no áudio.

O outro lado não estava na tribuna

A régua do Aparte é a mesma para os dois lados: mostrado o insulto de um, procura-se o do outro na mesma sessão. Nesta, não havia o outro. Nenhum dos dez políticos que discursaram era do PT, do PV ou da Rede, os partidos citados por Carla Dickson: eram do PL, do PP, do MDB e do Podemos. Ninguém respondeu às metástases, e no meio do discurso não havia como: nesse tipo de sessão o regimento proíbe o aparte, a interrupção com que um parlamentar contesta outro na tribuna. “Não serão concedidos apartes nas sessões especiais”, diz o art. 200.

Perto do fim, ao agradecer aos colegas médicos que não voltam ao Congresso em 2027, Dr. Hiran falou de quem se elege: “quem elege, às vezes, são influencers, tiktokers”, e “a gente elege por likes”. No último bloco das notas, o das 12h32, declarou “cumprida a finalidade da sessão especial”; a sessão foi levantada às 12h34.

Como fizemos

Falas: notas taquigráficas revisadas do Senado da sessão especial de 14 de outubro de 2026, o registro oficial palavra por palavra. Lemos a sessão inteira, das 10h08 às 12h34, e fixamos uma cópia do dia 20 para que a matéria não mude se a página mudar.

Horas: a de cada frase é a do bloco de 4 minutos das notas em que ela está. Não medimos as falas no áudio nem no vídeo.

Partido e resultado de urna: cadastro e arquivo final do Tribunal Superior Eleitoral, 1º turno de 4 de outubro. Mandato de Dr. Hiran: eleição de 2022, pelo TSE.

Cada trecho entre aspas foi conferido letra por letra no registro oficial, e cada link abre a página das notas com a frase destacada. Não procuramos os citados.

Regras da sessão especial: Regimento Interno do Senado, no texto consolidado pela Secretaria-Geral da Mesa (Diário do Senado Federal de 22 de dezembro de 2018). Os dois artigos citados não mudaram depois disso.

O que este número não diz

A reportagem descreve o que se disse na tribuna. Do regimento do Senado, cita duas regras: a sessão especial é só para comemoração ou homenagem, e nela não há aparte. Os dois artigos da sessão especial (199 e 200) não falam de declaração de voto, e a reportagem não afirma que houve infração. A queda do som de Dr. Hiran está nas notas como “fora do microfone”; a causa não está registrada. Os resultados de urna são do 1º turno.

Fontes

  1. Senado — notas taquigráficas da sessão especial do Dia do Médico, 14/10/2026
  2. TSE — votação por candidato, eleições de 2026
  3. TSE — candidaturas de 2026
  4. Senado — Regimento Interno, texto consolidado (arts. 154 e 200)
  5. letramento.org/eleicoes — o mandato de Dr. Hiran no Senado (abre em nova aba)
  6. letramento.org/eleicoes — Carla Dickson no mapa da votação do Rio Grande do Norte (abre em nova aba)

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