Braga falou por toda a bancada do MDB ao apoiar Lula; sete dos nove senadores não falaram na sessão
No Senado, em 13 de outubro, Eduardo Braga leu o apoio de dez dos 27 diretórios do MDB a Lula e admitiu que outros diretórios iam no sentido contrário. Vinte minutos depois, declarou o apoio em nome de toda a bancada. Dos nove senadores do partido, só ele e Veneziano falaram; dois são de estados fora dos dez.
O discurso que anunciou o apoio de dez diretórios do MDB terminou falando pela bancada inteira. Em 13 de outubro, no Senado, Eduardo Braga (MDB-AM), reeleito senador como o mais votado do Amazonas, com 32,29% dos votos válidos, líder do partido na Casa, disse que “dez dos 27 diretórios do MDB expressaram, através de uma manifestação pública, o seu apoio à reeleição do Presidente Lula”. Vinte minutos depois, fechou: o apoio era “em nome de toda a Bancada de Senadores do MDB e em nome de dez diretórios, do Norte e Nordeste deste país, do nosso partido”.
Os senadores do MDB em exercício naquele dia eram nove, pela lista oficial do Senado. Na sessão, só dois falaram: Braga e Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), reeleito senador como o segundo mais votado da Paraíba. Os outros sete não falaram, nem para confirmar nem para contestar. Um deles, Marcelo Castro (MDB-PI), reeleito senador como o mais votado do Piauí, com 35,92%, estava inscrito como orador e não estava no plenário quando foi chamado, às 17h36. Dos sete, dois são de estados cujo diretório não está na lista que Braga leu.
O partido dividido, nas palavras do líder
Braga estava inscrito para discutir a PEC do fim da escala 6x1, mas gastou o começo do tempo na reforma tributária e na democracia, e avisou que aquilo “baseia a decisão que dez diretórios do MDB tomaram no dia de hoje”. A divisão, ele mesmo a descreveu, numa frase só: “vejam como o meu partido é democrático: nós, dez diretórios, divergimos da decisão de outros diretórios, que vão anunciar posição em sentido contrário - tudo bem! -, mas eles não impõem sobre nós nenhuma decisão”.
Depois de ler a nota de apoio a Lula, que chegou em segundo no 1º turno e disputa o 2º em 25 de outubro, Braga disse com que autoridade assinava: “Eu assino como Líder da bancada no Senado, Sr. Presidente, uma das instâncias partidárias, e sou corroborado pelos diretórios estaduais do Norte e Nordeste brasileiro”. E leu os dez: Amazonas, Alagoas, Bahia, Ceará, Pará, Pernambuco, Maranhão, Piauí, Paraíba e Rondônia. Errou o nome na sequência, “Esses dez municípios”, e quem presidia, Davi Alcolumbre (União-AP), que não disputou a eleição e tem mandato até 2031, corrigiu fora do microfone: “Dez estados”.
Ao abrir o aparte, Davi chamou a leitura de “um anúncio importante da liderança da bancada do MDB” e disse que “aqueles que quiserem fazer sua manifestação vão poder participar”. Pediu a palavra um senador do MDB, Veneziano.
Quem falou: Veneziano
No aparte, Veneziano fez uma ressalva, “com todo o devido respeito aos demais outros companheiros que respondem por diretórios emedebistas nas demais outras unidades”, e disse que, se Braga estivesse “a trazer uma leitura diferente desta”, a resposta seria: “Meu Líder, não estarei a acompanhá-lo porque esse não é o MDB”. Em seguida, disse qual é o MDB “que nós aprendemos a amar”: o de Ulysses Guimarães, Covas, Jarbas Vasconcelos, Humberto Lucena, Antonio Mariz, Pedro Simon e Luiz Henrique.
Disse se orgulhar de ver o líder na tribuna para “fazer a leitura destes dez diretórios que estão a reafirmar” o apoio a Lula, e fechou o aparte: “V. Exa. fala por nós. Senador Eduardo Braga, muito obrigado”.
Uma hora antes, em discurso próprio, Veneziano já tinha falado da nota. Disse que, “pelo menos até esta data e esta hora, dez dos seus diretórios permanecem firmes, fortes”, e que a declaração era do líder, Braga.
Quem não falou
- Eduardo Braga (AM) · estado entre os dez · falou na sessão de 13/10
- Veneziano Vital do Rêgo (PB) · estado entre os dez · falou na sessão de 13/10
- Marcelo Castro (PI) · estado entre os dez · não falou em 13/10 (inscrito como orador, não estava no plenário quando chamado às 17h36); falou em 14/10 e 15/10
- Renan Filho (AL) · estado entre os dez · não falou em 13/10; falou em 14/10
- Confúcio Moura (RO) · estado entre os dez · não falou em 13/10; falou em 15/10
- Jader Barbalho (PA) · estado entre os dez · não falou em 13/10; sem fala em 13, 14 e 15/10
- Renan Calheiros (AL) · estado entre os dez · não falou em 13/10; sem fala em 13, 14 e 15/10
- Alessandro Vieira (SE) · estado fora dos dez · não falou em 13/10; sem fala em 13, 14 e 15/10
- Ivete da Silveira (SC) · estado fora dos dez · não falou em 13/10; sem fala em 13, 14 e 15/10
Fonte: Senado, dados abertos (senadores em exercício, filiações) e notas taquigráficas de 13, 14 e 15/10/2026.
Ver dados
| Senador | UF | Diretório entre os dez? | Turnos em 13/10 | Turnos em 14/10 | Turnos em 15/10 |
|---|---|---|---|---|---|
| Eduardo Braga | AM | sim | 8 | 2 | 0 |
| Veneziano Vital do Rêgo | PB | sim | 11 | 13 | 22 |
| Marcelo Castro | PI | sim | 0 | 2 | 2 |
| Renan Filho | AL | sim | 0 | 3 | 0 |
| Confúcio Moura | RO | sim | 0 | 0 | 25 |
| Jader Barbalho | PA | sim | 0 | 0 | 0 |
| Renan Calheiros | AL | sim | 0 | 0 | 0 |
| Alessandro Vieira | SE | não | 0 | 0 | 0 |
| Ivete da Silveira | SC | não | 0 | 0 | 0 |
Dos nove senadores do MDB, sete são de estados cujo diretório assinou a nota: além de Braga e Veneziano, Marcelo Castro (PI); Renan Filho (AL), segundo colocado na disputa pelo governo de Alagoas; Renan Calheiros (AL), que ficou em terceiro na disputa pelo Senado em Alagoas; Jader Barbalho (PA), que não disputou a eleição e tem mandato até janeiro de 2027; e Confúcio Moura (RO), que também não disputou e sai em janeiro de 2027.
Os outros dois vêm de estados que ficaram fora da lista: Alessandro Vieira (SE), reeleito senador como o segundo mais votado de Sergipe, e Ivete da Silveira (SC), suplente de Jorginho Mello, sem candidatura em 2026 e com mandato até janeiro de 2027. Nenhum dos dois falou em 13, 14 ou 15 de outubro, as três sessões do Senado depois da leitura; Jader e Renan Calheiros também não. Ivete aparece três vezes nas notas de 13/10, sempre na voz de outros. Esperidião Amin (PP-SC), que ficou em terceiro na disputa pelo Senado em Santa Catarina, contou às 14h48 ter apresentado, “em meu nome e com a subscrição da Senadora Ivete da Silveira, uma indicação”, protocolada às 11h38, que pede um selo dos Correios em homenagem ao pintor catarinense Juarez Machado; quatro minutos depois, repetiu que tinha a subscrição dela. Às 15h32, Veneziano lembrou o marido dela, Luiz Henrique da Silveira, “na ausência da nossa amada companheira de Plenário, Senadora Ivete”.
Marcelo Castro estava no plenário durante o discurso do líder. Às 16h24, Braga cumprimentou “meu companheiro de MDB, presente aqui, no Plenário do Senado, meu companheiro Marcelo Castro”; às 17h12, a senadora Teresa Leitão (PT-PE), que também não disputou e tem mandato até 2031, o contou entre os três senadores reeleitos que tinha “na minha frente”. Às 17h32, Davi perguntou por ele; às 17h36, perguntou de novo, duas vezes, “O Senador Marcelo Castro se encontra presente?”, e explicou que “o Senador Marcelo Castro está inscrito na condição de orador”. Concluiu que “o Senador Marcelo Castro não está presente” e seguiu a sessão. As notas não dizem por que ele não estava.
O silêncio não diz que eles discordam. Diz que o “toda a Bancada” ficou na voz de dois. O diretório do estado não decide o voto do senador, e não achamos nota de nenhum senador do MDB contestando o líder.
Há ainda a outra bancada, a do futuro. Na abertura do mesmo discurso, Braga contou que o MDB “elegeu sete Senadores, formando, portanto, uma bancada de oito Senadores, inicialmente, aqui na nova Legislatura”. Desses oito, três são de estados fora dos dez: Roraima, Sergipe e Tocantins. Nas duas contas, a de hoje e a de 2027, “toda a bancada” é maior que o MDB dos dez estados.
O terceiro senador e os diretórios do outro lado
No dia seguinte, Marcelo Castro foi o terceiro senador do MDB a falar do assunto, e disse com quem tinham ficado os outros diretórios, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que chegou em primeiro no 1º turno: “o nosso glorioso MDB, não foge dessa divisão. Então, o nosso partido, ontem, tomou uma posição. Alguns diretórios apoiaram a candidatura de Flávio Bolsonaro, outros diretórios apoiaram a candidatura do Lula”. E fechou com a mesma ressalva geográfica de Braga: “o nosso MDB, mais uma vez, do Norte e do Nordeste estará unido”.
- 15h32Veneziano: “dez dos seus diretórios permanecem firmes, fortes”.
- 16h36Braga: “dez dos 27 diretórios do MDB”.
- 16h40Braga lê os dez estados. Diz “Esses dez municípios”; Davi corrige: “Dez estados”.
- 16h48Veneziano, no aparte: “V. Exa. fala por nós”.
- 16h56Braga: “em nome de toda a Bancada de Senadores do MDB e em nome de dez diretórios”.
- 14/10, 16h08Marcelo Castro: “Alguns diretórios apoiaram a candidatura de Flávio Bolsonaro, outros diretórios apoiaram a candidatura do Lula”.
Fonte: notas taquigráficas revisadas do Senado, 13 e 14/10/2026.
O argumento com que Braga pediu o voto foi o da barriga, não o da ideologia: “Ideologia é muito bom, Sr. Presidente. Eu respeito todas elas. Mas quando vira briga, não enche barriga de ninguém”. A frase veio logo antes do “toda a Bancada”. Dos sete que não falaram naquela tarde, só Marcelo Castro voltou ao assunto na tribuna. Os outros seis, nas notas do Senado, ainda não disseram de que lado da briga estão.
Como fizemos
Falas: notas taquigráficas oficiais e revisadas do Senado de 13/10/2026 (sessão 591263, 57 blocos), 14/10 (591267) e 15/10 (591273). Cada trecho entre aspas foi conferido letra por letra no bloco de 4 minutos da hora indicada.
Bancada: lista de senadores em exercício da API de dados abertos do Senado (versão de 20/10/2026), com o período de exercício e a filiação de cada um, que cobrem 13/10. Quem falou: os cabeçalhos de turno das notas de cada sessão.
Bancada de 2027 e urnas: arquivo final do Tribunal Superior Eleitoral, 1º turno de 4 de outubro. Não procuramos os citados.
O que este número não diz
O jornal não afirma que o “toda a Bancada” é falso, nem que algum senador do MDB discorda do apoio a Lula: diz só quem falou na tribuna. Não contamos presença em plenário, porque não houve votação nominal na sessão; a de Marcelo Castro vem do que Braga, Teresa Leitão e o presidente da sessão disseram, nas notas. Não achamos a nota da direção nacional do MDB nem nota de senador contestando o líder; a imprensa noticiou no mesmo dia o apoio de outros diretórios a Flávio Bolsonaro, com números diferentes entre os veículos, e por isso a matéria não conta os diretórios do outro lado. A lista de senadores é a de 20/10, conferida para 13/10 pelas datas de exercício e de filiação. Não conferimos as falas no vídeo da sessão.
Fontes
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