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AparteO Congresso pelo que se diz na tribuna
Quarta-feira, 14 de outubro de 2026 · Edição nº 6
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Câmara · ReportagemCâmara

Otoni disse 83%, Luiz Lima disse 95%: na mesma sessão da Câmara, nenhum dos dois deu a fonte

Na Câmara, em 13 de outubro, Otoni de Paula disse sem fonte que 83% dos votos de Flávio Bolsonaro “em área de milícia” são “deles”. Luiz Lima respondeu que “o que ele disse é mentira”, sem citar o número. Menos de meia hora depois, na tribuna, disse que “95% dos presos” “fazem o L”, também sem fonte.

Reportagem · Câmara

Na sessão da Câmara de 13 de outubro, dois deputados do Rio de Janeiro disseram um percentual cada um, sem dizer de onde vinha. Otoni de Paula (PSD-RJ) disse que 83% dos votos de Flávio Bolsonaro “em área de milícia são deles”. Luiz Lima (Novo-RJ), que no minuto seguinte respondeu ao discurso de Otoni com “o que ele disse é mentira”, subiu à tribuna menos de meia hora depois e disse: “95% dos presos, traficantes, assassinos e sequestradores, fazem o L nos presídios”. A seção não verifica cada afirmação feita na tribuna.

Otoni falava contra Flávio Bolsonaro; Luiz Lima, contra o governo Lula. Os dois números não medem a mesma coisa: um fala de votos “em área de milícia”, o outro, de presos que “fazem o L”. Ninguém, na sessão, mostrou de onde vinha nenhum dos dois.

Lula (PT), que teve 45,16% dos votos válidos (abre em nova aba) no 1º turno, disputa o 2º turno, em 25 de outubro, com Flávio Bolsonaro (PL), que teve 47,03% (abre em nova aba).

Os 83% de Otoni

Otoni de Paula, que disputou a reeleição e ficou como suplente, com 19.364 votos (abre em nova aba), falou nas Breves Comunicações, a parte da sessão em que o deputado escolhe o tema. Dirigiu o discurso inteiro ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que, segundo ele, “está exigindo que se apaguem posts que dizem que o presidenciável Flávio Bolsonaro tem envolvimento com as milícias”. Passou o discurso dizendo que Flávio, que ficou na frente também na capital do Rio, com 47,88% dos votos válidos, “tem, sim, envolvimento com as milícias do Rio de Janeiro”, com casos que enumerou. São afirmações dele; a seção não verifica cada afirmação feita na tribuna.

Otoni não disse qual ordem descrevia. Duas decisões da Justiça Eleitoral sobre posts que ligavam Flávio a milícias são públicas. Dois dias antes do discurso, Mendonça, como ministro do TSE, mandou a central sindical CUT apagar do Instagram publicações contra Flávio, uma delas ligando-o às milícias. Nos trechos da decisão publicados pela imprensa, o motivo é a “aparente ilicitude da veiculação de propaganda eleitoral no perfil institucional de pessoa jurídica”; eles não dizem se a ligação existe. No mesmo dia do discurso, o plenário do TSE, por unanimidade e com Mendonça como relator, manteve a retirada de duas publicações que “associavam Flávio Bolsonaro a milícias, traficantes e integrantes de facções criminosas”, atribuídas aos deputados Lindbergh Farias (PT-RJ), reeleito com 181.768 votos (abre em nova aba), e Rogério Correia (PT-MG), reeleito com 185.912 votos (abre em nova aba). Segundo a notícia oficial do tribunal, a crítica política passa do limite “quando o conteúdo apresenta acusações graves sem elementos que as sustentem”. As duas tratam de propaganda eleitoral: mandam retirar publicações e não são processo criminal contra Flávio.

Ao terminar, Otoni rebateu a tese do outro lado: “E, para terminar, Ministro, sabe essa história de que Lula é o mais votado em presídios?” E deu o número: “Oitenta e três por cento dos votos para o Flavinho em área de milícia são deles.” A frase não diz de que total são os 83%, se dos votos dados nessas áreas ou dos votos de Flávio, nem quais são as áreas. “Área de milícia” não é categoria da Justiça Eleitoral.

Logo depois, Otoni falou do próprio mandato: “Tomaram o meu mandato, mas não conseguiram tomar a minha honra, nem a minha voz, nem a minha coragem.” A frase é dele.

O minuto de Luiz Lima

Luiz Lima, reeleito com 79.249 votos (abre em nova aba), 17,12% deles em Nova Friburgo, na serra, pediu: “Peço 1 minuto, Presidente Charles, por favor.” O presidente deu, enquanto o orador seguinte caminhava para a tribuna. Luiz Lima usou o minuto para responder ao discurso: “eu ouvi com muita atenção o Deputado que me antecedeu e quero dizer, primeiro, que o que ele disse é mentira.” Não apontou qual afirmação de Otoni era mentira nem citou o número dele. Em seguida, falou de três bairros: “As áreas no Rio de Janeiro que deram a maior votação ao Flávio Bolsonaro foram Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, Itanhangá.” Também sem dizer de onde vinha a lista. O mapa da urna por bairro está nos dados da Justiça Eleitoral e é assunto do letramento.org/eleicoes.

Jandira Feghali (PCdoB-RJ), reeleita com 74.409 votos (abre em nova aba), mais da metade deles (52,85%) na capital, ganhou o minuto seguinte: “eu quero apenas endossar e reafirmar o discurso do Deputado Otoni de Paula.” “Ele fala de fatos. O mapa eleitoral é explícito. Não temos como negar fato. Contra fato não há argumento.” Não deu número. E pôs milícia num dos três bairros que Luiz Lima acabara de citar: “Aliás, o Recreio, perto da Barra da Tijuca, tem muita milícia.” Mais tarde, na tribuna, repetiu: “No mapa eleitoral, é nítido de se ver onde majoritariamente ele teve voto no Rio de Janeiro: nos territórios dominados pela milícia.” Como as de Otoni, são afirmações dela; a seção não verifica cada afirmação feita na tribuna. O que a Justiça Eleitoral decidiu sobre posts que ligavam Flávio a milícias está mais acima.

Os 95% de Luiz Lima

Luiz Lima subiu à tribuna logo depois de Jandira, no bloco das 14h56 das notas. Agradeceu os eleitores, falou do Novo e da cláusula de barreira. Então: “Eu ouvi Deputados aqui falando em números absurdos.” Não disse quais deputados nem quais números. No mesmo parágrafo, depois de uma lista de queixas ao governo, veio o número dele: “Tudo isso no desgoverno Lula, no qual 95% dos presos, traficantes, assassinos e sequestradores, fazem o L nos presídios.”

A frase não diz de onde vem o 95%, nem fala em voto. Até o fim da sessão, Luiz Lima voltou ao microfone mais cinco vezes, e Otoni, mais duas. Nenhum dos dois voltou ao próprio número.

Dois números, nenhuma fonte: 13 de outubro na Câmara
  1. 14h32Otoni de Paula (PSD-RJ), fechando o discurso: “Oitenta e três por cento dos votos para o Flavinho em área de milícia são deles.”
  2. 14h32Luiz Lima (Novo-RJ), no minuto seguinte, sobre o discurso de Otoni: “o que ele disse é mentira”. Não cita o número.
  3. 14h32Jandira Feghali (PCdoB-RJ), no minuto depois: “Contra fato não há argumento.”
  4. 14h56Luiz Lima, na tribuna, no fim de uma lista de queixas ao governo: “95% dos presos, traficantes, assassinos e sequestradores, fazem o L nos presídios”.
  5. 15/10No Senado, Rogerio Marinho (PL-RN): “Isso é um dado: 73% da população carcerária votou no Lula. Isso é um fato.”

Fonte: notas taquigráficas da Câmara (13/10/2026, sessão 83047) e do Senado (15/10/2026). As horas são as dos blocos de 4 minutos das notas.

Ver dados
QuemNúmero ditoDe quêFonte dita
Otoni de Paula (PSD-RJ), 13/1083%votos de Flávio “em área de milícia”nenhuma
Luiz Lima (Novo-RJ), 13/1095%presos que “fazem o L”nenhuma
Jandira Feghali (PCdoB-RJ), 13/10nenhumendossa Otoni: “O mapa eleitoral é explícito.”nenhuma
Rogerio Marinho (PL-RN), 15/10, Senado73%“população carcerária” que votou em Lulanenhuma

Dois dias depois, outro número

Em 15 de outubro, o voto dos presos voltou à tribuna, agora no Senado e com outro número. Rogerio Marinho (PL-RN), que não disputou a eleição deste ano e tem mandato até 2031 (abre em nova aba), disse que 73% da população carcerária votou em Lula e chamou isso de dado e de fato. Também não disse a fonte. A cena está no Apupos (abre em nova aba).

O número oficial mais perto do assunto mede outra coisa. Nas 243 seções eleitorais que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) instalou em presídios e unidades de internação, Lula teve 72,55% dos votos válidos no 1º turno, segundo a apuração do letramento.org/eleicoes (abre em nova aba). Ali votam presos provisórios, adolescentes internados, servidores e mesários; quem já foi condenado em definitivo não vota. O número não mede “os presos” e não confirma nem desmente nenhum dos três ditos na tribuna. Nos dados da Justiça Eleitoral, “área de milícia” não é categoria: não há voto contado assim.

O que ficou sem resposta

Na mesma sessão, um deputado disse um percentual sem fonte; o outro chamou de mentira o que ele disse, sem dizer de onde vinha a própria lista de bairros, e menos de meia hora depois disse um percentual seu, também sem fonte. A deputada que endossou o primeiro disse que contra fato não há argumento, e não disse número. Ficaram os 83% e os 95%, cada um dito uma vez. Qual dos dois alguém mostrou?

Como fizemos

As falas vêm das notas taquigráficas oficiais da sessão da Câmara de 13/10/2026 (57 blocos de 4 minutos, todos revisados pela taquigrafia; as falas estão marcadas "sem revisão do orador"). Cada trecho entre aspas foi conferido letra por letra no texto e no bloco em que está. As horas são as dos blocos; como cada bloco cobre 4 minutos, a distância entre a resposta de Luiz Lima e os 95% vai de 20 a 28 minutos, e o texto diz "menos de meia hora".

A contagem dos números (quantas vezes cada um aparece, quem disse "mentira", se o orador citou fonte) foi feita por programa sobre a sessão inteira, sem inteligência artificial. "Citar fonte" quer dizer nomear de onde vem o número: TSE, pesquisa, levantamento, estudo, instituto.

Os resultados eleitorais dos citados são do arquivo final do TSE do 1º turno, 4 de outubro de 2026. Os números das urnas dos presídios são o cálculo do letramento.org/eleicoes; este texto não refez a conta.

As decisões da Justiça Eleitoral sobre posts que ligavam Flávio Bolsonaro a milícias vêm da notícia oficial do TSE sobre o julgamento do plenário de 13/10/2026 e, para a ordem de 11/10 à CUT, de que o TSE não publicou notícia, dos trechos da decisão publicados pelo Diário do Grande ABC no mesmo dia. Não abrimos os processos.

Não procuramos os citados.

O que este número não diz

Não diz se os 83% ou os 95% estão certos ou errados: nenhum dos dois oradores disse de onde vinham, nos dados da Justiça Eleitoral "área de milícia" não é categoria, e o voto nas seções de presídio não mede "os presos". Não diz quais bairros deram mais votos a Flávio Bolsonaro no Rio. Não verifica as acusações de Otoni de Paula a Flávio Bolsonaro nem o endosso de Jandira Feghali; das decisões da Justiça Eleitoral, conta o que a notícia oficial do TSE e os trechos publicados da ordem à CUT dizem, sem ter aberto os processos, e não diz qual delas Otoni descrevia: ele não disse. Não diz qual parte do discurso de Otoni Luiz Lima chamou de mentira, nem de quem eram os "números absurdos" de que ele falou: ele não disse.

Fontes

  1. Câmara — notas taquigráficas da sessão de 13/10/2026
  2. Câmara — página da sessão de 13/10/2026
  3. Senado — notas taquigráficas da sessão de 15/10/2026
  4. TSE — o julgamento de 13/10/2026 sobre publicações que ligavam Lula e Flávio ao crime organizado
  5. Diário do Grande ABC — a ordem de 11/10/2026 à CUT, com trechos da decisão
  6. letramento.org/eleicoes — as urnas dos presídios (abre em nova aba)
  7. TSE — resultados de 2026

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