Otoni disse 83%, Luiz Lima disse 95%: na mesma sessão da Câmara, nenhum dos dois deu a fonte
Na Câmara, em 13 de outubro, Otoni de Paula disse sem fonte que 83% dos votos de Flávio Bolsonaro “em área de milícia” são “deles”. Luiz Lima respondeu que “o que ele disse é mentira”, sem citar o número. Menos de meia hora depois, na tribuna, disse que “95% dos presos” “fazem o L”, também sem fonte.
Na sessão da Câmara de 13 de outubro, dois deputados do Rio de Janeiro disseram um percentual cada um, sem dizer de onde vinha. Otoni de Paula (PSD-RJ) disse que 83% dos votos de Flávio Bolsonaro “em área de milícia são deles”. Luiz Lima (Novo-RJ), que no minuto seguinte respondeu ao discurso de Otoni com “o que ele disse é mentira”, subiu à tribuna menos de meia hora depois e disse: “95% dos presos, traficantes, assassinos e sequestradores, fazem o L nos presídios”. A seção não verifica cada afirmação feita na tribuna.
Otoni falava contra Flávio Bolsonaro; Luiz Lima, contra o governo Lula. Os dois números não medem a mesma coisa: um fala de votos “em área de milícia”, o outro, de presos que “fazem o L”. Ninguém, na sessão, mostrou de onde vinha nenhum dos dois.
Lula (PT), que teve 45,16% dos votos válidos (abre em nova aba) no 1º turno, disputa o 2º turno, em 25 de outubro, com Flávio Bolsonaro (PL), que teve 47,03% (abre em nova aba).
Os 83% de Otoni
Otoni de Paula, que disputou a reeleição e ficou como suplente, com 19.364 votos (abre em nova aba), falou nas Breves Comunicações, a parte da sessão em que o deputado escolhe o tema. Dirigiu o discurso inteiro ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que, segundo ele, “está exigindo que se apaguem posts que dizem que o presidenciável Flávio Bolsonaro tem envolvimento com as milícias”. Passou o discurso dizendo que Flávio, que ficou na frente também na capital do Rio, com 47,88% dos votos válidos, “tem, sim, envolvimento com as milícias do Rio de Janeiro”, com casos que enumerou. São afirmações dele; a seção não verifica cada afirmação feita na tribuna.
Otoni não disse qual ordem descrevia. Duas decisões da Justiça Eleitoral sobre posts que ligavam Flávio a milícias são públicas. Dois dias antes do discurso, Mendonça, como ministro do TSE, mandou a central sindical CUT apagar do Instagram publicações contra Flávio, uma delas ligando-o às milícias. Nos trechos da decisão publicados pela imprensa, o motivo é a “aparente ilicitude da veiculação de propaganda eleitoral no perfil institucional de pessoa jurídica”; eles não dizem se a ligação existe. No mesmo dia do discurso, o plenário do TSE, por unanimidade e com Mendonça como relator, manteve a retirada de duas publicações que “associavam Flávio Bolsonaro a milícias, traficantes e integrantes de facções criminosas”, atribuídas aos deputados Lindbergh Farias (PT-RJ), reeleito com 181.768 votos (abre em nova aba), e Rogério Correia (PT-MG), reeleito com 185.912 votos (abre em nova aba). Segundo a notícia oficial do tribunal, a crítica política passa do limite “quando o conteúdo apresenta acusações graves sem elementos que as sustentem”. As duas tratam de propaganda eleitoral: mandam retirar publicações e não são processo criminal contra Flávio.
Ao terminar, Otoni rebateu a tese do outro lado: “E, para terminar, Ministro, sabe essa história de que Lula é o mais votado em presídios?” E deu o número: “Oitenta e três por cento dos votos para o Flavinho em área de milícia são deles.” A frase não diz de que total são os 83%, se dos votos dados nessas áreas ou dos votos de Flávio, nem quais são as áreas. “Área de milícia” não é categoria da Justiça Eleitoral.
Logo depois, Otoni falou do próprio mandato: “Tomaram o meu mandato, mas não conseguiram tomar a minha honra, nem a minha voz, nem a minha coragem.” A frase é dele.
O minuto de Luiz Lima
Luiz Lima, reeleito com 79.249 votos (abre em nova aba), 17,12% deles em Nova Friburgo, na serra, pediu: “Peço 1 minuto, Presidente Charles, por favor.” O presidente deu, enquanto o orador seguinte caminhava para a tribuna. Luiz Lima usou o minuto para responder ao discurso: “eu ouvi com muita atenção o Deputado que me antecedeu e quero dizer, primeiro, que o que ele disse é mentira.” Não apontou qual afirmação de Otoni era mentira nem citou o número dele. Em seguida, falou de três bairros: “As áreas no Rio de Janeiro que deram a maior votação ao Flávio Bolsonaro foram Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, Itanhangá.” Também sem dizer de onde vinha a lista. O mapa da urna por bairro está nos dados da Justiça Eleitoral e é assunto do letramento.org/eleicoes.
Jandira Feghali (PCdoB-RJ), reeleita com 74.409 votos (abre em nova aba), mais da metade deles (52,85%) na capital, ganhou o minuto seguinte: “eu quero apenas endossar e reafirmar o discurso do Deputado Otoni de Paula.” “Ele fala de fatos. O mapa eleitoral é explícito. Não temos como negar fato. Contra fato não há argumento.” Não deu número. E pôs milícia num dos três bairros que Luiz Lima acabara de citar: “Aliás, o Recreio, perto da Barra da Tijuca, tem muita milícia.” Mais tarde, na tribuna, repetiu: “No mapa eleitoral, é nítido de se ver onde majoritariamente ele teve voto no Rio de Janeiro: nos territórios dominados pela milícia.” Como as de Otoni, são afirmações dela; a seção não verifica cada afirmação feita na tribuna. O que a Justiça Eleitoral decidiu sobre posts que ligavam Flávio a milícias está mais acima.
Os 95% de Luiz Lima
Luiz Lima subiu à tribuna logo depois de Jandira, no bloco das 14h56 das notas. Agradeceu os eleitores, falou do Novo e da cláusula de barreira. Então: “Eu ouvi Deputados aqui falando em números absurdos.” Não disse quais deputados nem quais números. No mesmo parágrafo, depois de uma lista de queixas ao governo, veio o número dele: “Tudo isso no desgoverno Lula, no qual 95% dos presos, traficantes, assassinos e sequestradores, fazem o L nos presídios.”
A frase não diz de onde vem o 95%, nem fala em voto. Até o fim da sessão, Luiz Lima voltou ao microfone mais cinco vezes, e Otoni, mais duas. Nenhum dos dois voltou ao próprio número.
- 14h32Otoni de Paula (PSD-RJ), fechando o discurso: “Oitenta e três por cento dos votos para o Flavinho em área de milícia são deles.”
- 14h32Luiz Lima (Novo-RJ), no minuto seguinte, sobre o discurso de Otoni: “o que ele disse é mentira”. Não cita o número.
- 14h32Jandira Feghali (PCdoB-RJ), no minuto depois: “Contra fato não há argumento.”
- 14h56Luiz Lima, na tribuna, no fim de uma lista de queixas ao governo: “95% dos presos, traficantes, assassinos e sequestradores, fazem o L nos presídios”.
- 15/10No Senado, Rogerio Marinho (PL-RN): “Isso é um dado: 73% da população carcerária votou no Lula. Isso é um fato.”
Fonte: notas taquigráficas da Câmara (13/10/2026, sessão 83047) e do Senado (15/10/2026). As horas são as dos blocos de 4 minutos das notas.
Ver dados
| Quem | Número dito | De quê | Fonte dita |
|---|---|---|---|
| Otoni de Paula (PSD-RJ), 13/10 | 83% | votos de Flávio “em área de milícia” | nenhuma |
| Luiz Lima (Novo-RJ), 13/10 | 95% | presos que “fazem o L” | nenhuma |
| Jandira Feghali (PCdoB-RJ), 13/10 | nenhum | endossa Otoni: “O mapa eleitoral é explícito.” | nenhuma |
| Rogerio Marinho (PL-RN), 15/10, Senado | 73% | “população carcerária” que votou em Lula | nenhuma |
Dois dias depois, outro número
Em 15 de outubro, o voto dos presos voltou à tribuna, agora no Senado e com outro número. Rogerio Marinho (PL-RN), que não disputou a eleição deste ano e tem mandato até 2031 (abre em nova aba), disse que 73% da população carcerária votou em Lula e chamou isso de dado e de fato. Também não disse a fonte. A cena está no Apupos (abre em nova aba).
O número oficial mais perto do assunto mede outra coisa. Nas 243 seções eleitorais que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) instalou em presídios e unidades de internação, Lula teve 72,55% dos votos válidos no 1º turno, segundo a apuração do letramento.org/eleicoes (abre em nova aba). Ali votam presos provisórios, adolescentes internados, servidores e mesários; quem já foi condenado em definitivo não vota. O número não mede “os presos” e não confirma nem desmente nenhum dos três ditos na tribuna. Nos dados da Justiça Eleitoral, “área de milícia” não é categoria: não há voto contado assim.
O que ficou sem resposta
Na mesma sessão, um deputado disse um percentual sem fonte; o outro chamou de mentira o que ele disse, sem dizer de onde vinha a própria lista de bairros, e menos de meia hora depois disse um percentual seu, também sem fonte. A deputada que endossou o primeiro disse que contra fato não há argumento, e não disse número. Ficaram os 83% e os 95%, cada um dito uma vez. Qual dos dois alguém mostrou?
Como fizemos
As falas vêm das notas taquigráficas oficiais da sessão da Câmara de 13/10/2026 (57 blocos de 4 minutos, todos revisados pela taquigrafia; as falas estão marcadas "sem revisão do orador"). Cada trecho entre aspas foi conferido letra por letra no texto e no bloco em que está. As horas são as dos blocos; como cada bloco cobre 4 minutos, a distância entre a resposta de Luiz Lima e os 95% vai de 20 a 28 minutos, e o texto diz "menos de meia hora".
A contagem dos números (quantas vezes cada um aparece, quem disse "mentira", se o orador citou fonte) foi feita por programa sobre a sessão inteira, sem inteligência artificial. "Citar fonte" quer dizer nomear de onde vem o número: TSE, pesquisa, levantamento, estudo, instituto.
Os resultados eleitorais dos citados são do arquivo final do TSE do 1º turno, 4 de outubro de 2026. Os números das urnas dos presídios são o cálculo do letramento.org/eleicoes; este texto não refez a conta.
As decisões da Justiça Eleitoral sobre posts que ligavam Flávio Bolsonaro a milícias vêm da notícia oficial do TSE sobre o julgamento do plenário de 13/10/2026 e, para a ordem de 11/10 à CUT, de que o TSE não publicou notícia, dos trechos da decisão publicados pelo Diário do Grande ABC no mesmo dia. Não abrimos os processos.
Não procuramos os citados.
O que este número não diz
Não diz se os 83% ou os 95% estão certos ou errados: nenhum dos dois oradores disse de onde vinham, nos dados da Justiça Eleitoral "área de milícia" não é categoria, e o voto nas seções de presídio não mede "os presos". Não diz quais bairros deram mais votos a Flávio Bolsonaro no Rio. Não verifica as acusações de Otoni de Paula a Flávio Bolsonaro nem o endosso de Jandira Feghali; das decisões da Justiça Eleitoral, conta o que a notícia oficial do TSE e os trechos publicados da ordem à CUT dizem, sem ter aberto os processos, e não diz qual delas Otoni descrevia: ele não disse. Não diz qual parte do discurso de Otoni Luiz Lima chamou de mentira, nem de quem eram os "números absurdos" de que ele falou: ele não disse.
Fontes
- Câmara — notas taquigráficas da sessão de 13/10/2026
- Câmara — página da sessão de 13/10/2026
- Senado — notas taquigráficas da sessão de 15/10/2026
- TSE — o julgamento de 13/10/2026 sobre publicações que ligavam Lula e Flávio ao crime organizado
- Diário do Grande ABC — a ordem de 11/10/2026 à CUT, com trechos da decisão
- letramento.org/eleicoes — as urnas dos presídios (abre em nova aba)
- TSE — resultados de 2026
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