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AparteO Congresso pelo que se diz na tribuna
Quarta-feira, 14 de outubro de 2026 · Edição nº 6
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Câmara · ReportagemCâmara

Kim defendia o teto maior do MEI e votou contra; a oposição o chamou de eleitoreiro e votou a favor

Na Câmara, em 14 de outubro, o texto que sobe o teto do MEI passou por 461 a 4. Kim Kataguiri disse que o governo misturou o teto com o perdão das dívidas, e o texto confirma. Governistas disseram que o projeto traz um Pix de R$ 5 mil; o texto não traz.

Reportagem · Câmara

Às 17h04 de 14 de outubro, Kim Kataguiri (Missão-SP), reeleito como o quarto mais votado de São Paulo, subiu à tribuna da Câmara para pedir que o projeto do MEI saísse da pauta. A segunda frase foi esta: “Eu sempre defendi aqui nesta Casa, durante 4 anos, que a gente ampliasse o teto do MEI.” Duas horas e meia depois, o texto que amplia o teto passou por 461 votos a 4. Kim foi um dos quatro “não”.

Do outro lado do mesmo painel, Sargento Fahur (PL-PR), reeleito como o terceiro mais votado do Paraná, orientou a Minoria e a Oposição às 17h16: “Nós entendemos, é claro, que o Governo está usando este projeto com viés eleitoreiro, até mesmo pelo momento inoportuno, mas compreendemos que o projeto precisa ser votado.” Fahur votou “sim”. O Aparte leu as falas ao lado do texto aprovado, para ver onde cada argumento se sustenta e onde cede.

A mistura que Kim denunciou

O argumento de Kim tem uma peça central. Para ele, o governo juntou no mesmo voto o que a direita apoiava e o que ele chama de eleitoreiro: “eles estão misturando uma pauta de que a Direita é a favor, que é a ampliação do teto de faturamento, com a pauta eleitoreira, que é a anistia da dívida”. E disse para quê: “Eles estão misturando as votações para nos fazer de reféns.”

Nesse ponto, o texto lhe dá razão. O projeto do governo, o PLP 186, tratava só do teto e dos empregados. O relator juntou a ele outro projeto, o PLP 267, e disse na tribuna que apresentava “substitutivo que consolida as disposições dos Projetos de Lei Complementar nºs 186 e 267, ambos de 2026”. O texto aprovado diz, já na ementa, que vem para “conceder remissão de créditos de titularidade da União de sua responsabilidade”. O teto e o perdão foram votados juntos, num voto só.

O Pix que não está no texto

A terceira peça da mistura, Kim situou fora do projeto. Às 17h04, falou do Pix de R$ 5 mil que viria “depois, por decreto”. Às 17h16, ao orientar a Missão, o Pix voltou como parte do que ele recusava: o governo estaria “fingindo que ele vai receber, magicamente, um Pix de 5 mil reais na sua conta”. Às 17h52, de novo: “e, não satisfeitos, ainda prometem um Pix na conta de 5 mil reais”.

O texto aprovado não tem Pix, nem repasse de R$ 5 mil, nem financiamento a fundo perdido. Nas três falas, Kim tratou o Pix como promessa do governo, não como artigo do projeto, e o texto não o desmente nisso.

Quem pôs o Pix dentro do projeto com todas as letras foi o lado do governo. Alencar Santana (PT-SP), reeleito com 160.264 votos, orientou pelo Governo dizendo que a matéria traz “outros benefícios, como o Pix para o empreendedor modernizar seu negócio”. Professora Luciene Cavalcante (PSOL-SP), reeleita com 253.778 votos, orientou o PSOL e a Rede às 19h24 por um texto “que vai trazer o perdão das dívidas tributárias e ainda vai criar o Pix de 5 mil reais para investimento”. Nos dois casos, a frase cede no texto: o Pix não está lá.

Quatro pontos: o que se disse e o que está no textoEm cada item, a fala na tribuna e o texto que a Câmara aprovou e mandou ao Senado.
  • O teto. Na tribuna, Kim, às 17h04: “Eu sempre defendi aqui nesta Casa, durante 4 anos, que a gente ampliasse o teto do MEI.” No texto, Sobe para R$ 110 mil em 2027 e chega a “até R$ 140.000,00 (cento e quarenta mil reais)”.
  • O perdão das dívidas. Na tribuna, Kim: o governo quer “não só a ampliar o teto, como também a anistiar as dívidas”. No texto, Está no art. 5º: “Fica concedida remissão integral dos créditos de titularidade da União”, com a condição de o MEI pagar em dia os seis meses seguintes.
  • O Pix de R$ 5 mil. Na tribuna, Kim, às 17h04, diz que viria “depois, por decreto”. Alencar Santana, pelo Governo, diz que a matéria traz “outros benefícios, como o Pix para o empreendedor modernizar seu negócio”. No texto, Não está. O texto aprovado não tem Pix, nem repasse de R$ 5 mil, nem financiamento a fundo perdido.
  • A conta. Na tribuna, Kim, às 19h28: “Ora, para o MEI também não há previsão orçamentária.” No texto, O art. 3º amarra o teto ao Orçamento: a ampliação “fica condicionada à consideração da respectiva renúncia de receita na lei orçamentária anual dos exercícios de 2027 a 2029”.

Fonte: Câmara dos Deputados, autógrafo do PLP 186/2026 (14/10/2026) e notas taquigráficas da sessão (sem revisão dos oradores).

Os quatro anos

O acervo do Aparte guarda 623 falas de Kim no Plenário, de fevereiro de 2019 a setembro de 2026. Em seis delas aparece o MEI; só em uma ele trata do limite de faturamento. Foi em 17 de março de 2026, ao orientar “sim” à urgência de outro projeto do teto, o PLP 108/2021: “Este projeto basicamente aumenta o limite de MEI para 130 mil reais.” Na mesma fala, Kim disse que ia propor correção anual pela inflação, e desconfiou do voto do governo a favor: “essa é a urgência do projeto, não é o projeto”.

Os quatro anos de que Kim falou não são só de tribuna. Às 17h04, logo depois da frase sobre o teto, ele disse que “durante 4 anos, os Líderes do Governo foram contra ela no Colégio de Líderes”. Às 17h52, voltou ao período: “durante 4 anos, eu escutei a base do Governo dizer que não dava para aumentar o teto, porque o Ministério da Fazenda, do Haddad, dizia que não tinha espaço fiscal”.

Reuniões de líderes, projetos e emendas ficam fora do acervo de falas no Plenário. Por isso o acervo não confirma nem desmente os quatro anos: mostra que, na tribuna, a defesa do teto aparece registrada em março de 2026.

Onde o argumento da conta cede

Na orientação do mérito, às 19h28, Kim mudou de terreno. O relator tinha recusado estender o reajuste às empresas do Simples por falta de previsão no Orçamento. Kim respondeu: “Ora, para o MEI também não há previsão orçamentária.”

O texto aprovado tem um artigo sobre isso. O art. 3º diz que a ampliação “fica condicionada à consideração da respectiva renúncia de receita na lei orçamentária anual dos exercícios de 2027 a 2029”. O Orçamento de 2027 ainda não foi votado, e nisso Kim tem um pedaço de razão: a previsão não existe hoje. O texto, porém, põe o teto na dependência dela.

O outro lado do recibo

A oposição falou como Kim e votou como o governo. Cabo Gilberto Silva (PL-PB), reeleito como o mais votado da Paraíba, líder da Oposição, disse às 17h40 que Lula, “a 12 dias das eleições, ele vem com um pacote de bondades”, e orientou “sim”. Bia Kicis (PL-DF), eleita senadora pelo Distrito Federal, orientou a Minoria às 19h28 em duas frases: “nós vamos votar a favor desta medida, porque nós lutamos por ela”, e as pessoas “não vão se deixar enganar por essas medidas eleitoreiras, populistas”.

Kim cobrou essa diferença na tribuna, às 17h52, pedindo aos colegas de oposição que votassem contra. Reconheceu o custo: “Eu entendo, isso traz desgaste, você perde voto, você perde popularidade ao votar muitas vezes no que é certo.” No requerimento para tirar o projeto de pauta, teve 11 votos, o dele e mais 10; 387 votaram contra. No mérito, o “não” saiu de dois partidos além do dele. Em Eleições, as urnas dos quatro deputados que votaram “não” (abre em nova aba).

Os quatro votos “não”Votação nominal do texto do MEI, 14/10/2026: 461 a favor, 4 contra.
  • Antonio Andrade (PSDB-TO)
  • Aécio Neves (PSDB-MG)
  • Kim Kataguiri (Missão-SP)
  • Sargento Portugal (Podemos-RJ)

Fonte: Câmara dos Deputados, votação 2635476-36.

O argumento de Kim se sustenta na mistura: o teto e o perdão das dívidas estavam no mesmo voto, e quem quisesse um teria de aprovar o outro. Cede na conta, que o texto amarra ao Orçamento. A oposição cede no ponto inverso: chamou de eleitoreiro o que aprovou. E o governo cede onde prometeu um Pix que o texto não traz.

A mesma história nos outros jornais

Cada jornal da casa conta esta história pelo seu lado.

Como fizemos

Falas: notas taquigráficas oficiais da Câmara da sessão de 14 de outubro de 2026, todas sem revisão dos oradores. Cada trecho entre aspas foi conferido letra por letra no texto oficial; as horas são as do bloco de quatro minutos das notas.

Texto aprovado: autógrafo do PLP 186/2026 que a Câmara enviou ao Senado (14/10/2026). Procuramos nele “Pix”, “5.000,00”, “cinco mil reais” e “fundo perdido”: nenhuma ocorrência.

Acervo: 623 falas de Kim Kataguiri com texto na lista oficial do Plenário, de 05/02/2019 a 02/09/2026; contamos as que citam “MEI” ou “microempreendedor” e, delas, as que falam em teto, limite ou faturamento do MEI.

Votos e orientações: dados abertos da Câmara. Urnas: arquivo final do Tribunal Superior Eleitoral, 1º turno.

Não procuramos os citados.

O que este número não diz

Esta reportagem compara falas com o texto aprovado; não diz se o teto, o perdão ou o Pix são boa política, nem quanto custam (o custo de R$ 12 bilhões citado na tribuna não foi conferido). O acervo conta falas no Plenário: projetos, emendas e reuniões de líderes ficam fora, e por isso “quatro anos” não se mede aqui. O Pix de R$ 5 mil pode vir por outro ato do governo; o que a reportagem afirma é que ele não está neste texto. As notas ainda não foram revisadas pelos oradores.

Fontes

  1. Câmara — notas taquigráficas da sessão de 14/10/2026
  2. Câmara — autógrafo do PLP 186/2026 (14/10/2026)
  3. Câmara — PLP 186/2026, ficha de tramitação
  4. Câmara — votação 2635476-36, votos
  5. Câmara — votação 2635476-36, orientações
  6. Câmara — votação 2635476-23 (retirada de pauta), votos
  7. Câmara — fala de Kim Kataguiri em 17/03/2026
  8. TSE — votação por candidato, eleições de 2026

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