Com um nome no papel, a proposta do fim da escala 6x1 ouviu dois na tribuna do Senado
Às 20h22 de 14 de outubro, Cleitinho disse ao deputado Reginaldo Lopes: “a autoria é sua”. Menos de três minutos depois, Nelsinho Trad chamou Reginaldo pelo apelido, Mancha, e acrescentou a deputada Erika Hilton. Cinco senadores disseram o nome dela, todos de PT, MDB e PSD. Na Câmara, a lista oficial de autores da proposta só traz Reginaldo.
Eram 20h22 do dia 14 de outubro, e o Senado discutia a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1. Na tribuna estava Cleitinho (Republicanos-MG), eleito governador de Minas no 1º turno. Antes de terminar, ele falou a um deputado que estava no plenário. Disse o nome, o apelido e o estado: “Eu não poderia esquecer que está aqui o Reginaldo Lopes, conhecido como Mancha, lá do meu Estado de Minas Gerais”. E completou, tratando-o por Vossa Excelência: “Reginaldo, a PEC é de V. Exa., a autoria é sua”.
A escala 6x1 é a de seis dias de trabalho para um de folga. A proposta corta a jornada máxima de 44 para 40 horas por semana, sem redução de salário, e garante dois dias de folga remunerada, um deles de preferência no domingo. Pelo cronograma que o senador relator da proposta descreveu na sessão, a jornada cai para 42 horas em dois meses e chega a 40 um ano depois.
O dono do apelido é Reginaldo Lopes (PT-MG), reeleito deputado federal como o quarto mais votado de Minas. Menos de três minutos depois, às 20h24, o orador seguinte, Nelsinho Trad (PSD-MS), eleito em outubro como suplente (o substituto) de um senador eleito, repetiu o apelido. E pôs outro nome ao lado: disse que os artigos da proposta foram “muito bem desenhados pelo Deputado Reginaldo - o Mancha, como disse aqui o Governador eleito Cleitinho - e pela Deputada Erika Hilton, que aqui também abrilhanta a nossa sessão” (ouça no áudio oficial do Senado).
Erika Hilton (PSOL-SP), reeleita deputada federal como a segunda mais votada de São Paulo, teve o nome dito por cinco senadores naquela sessão, todos de PT, MDB e PSD. Nelsinho foi o quinto.
Um nome no papel, dois na tribuna. O papel é o registro oficial de autoria, que quem presidia a sessão leu na abertura, às 14h21: “do Deputado Reginaldo Lopes e outros Deputados”. Na tribuna, o nome de Reginaldo foi dito por oradores de quatro partidos: PT, MDB, PSD e Republicanos. O de Erika Hilton, só por senadores de PT, MDB e PSD.
As notas taquigráficas, o registro oficial palavra por palavra do que se diz no plenário, guardam as frases, não as intenções. Esta reportagem não diz por que alguém disse ou deixou de dizer um nome. O Aparte não procura os citados.
Cinco senadores, cinco jeitos de dizer o nome dela
O primeiro foi Paulo Paim (PT-RS), que não disputou a eleição e deixa o Senado em janeiro depois de 24 anos. Às 15h07, ele falou da proposta “de autoria dos Deputados Reginaldo Lopes e Erika Hilton”.
Às 17h02, voltou a ela, falando direto à deputada: “A decisão que vamos tomar sobre o fim da escala 6x1, Deputada Erika Hilton... Eu vou citar os dois, mas eu sei que a chamada da 6x1 tem a sua digital”. Na mesma frase, dividiu o crédito com Rick Azevedo (PSOL-RJ), eleito deputado federal como o segundo mais votado do Rio: “o companheiro que está ao seu lado”.
Paim pediu “uma salva de palmas a quem puxou a 6x1” e completou: “eu sei quem puxou a marca 6x1”. Nos minutos seguintes, disse os dois nomes juntos mais duas vezes.
Às 16h34, Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), reeleito senador pela Paraíba, disse que a proposta traz “a subscrição do nosso companheiro Deputado Reginaldo Lopes, da Deputada Erika Hilton”, ou seja, a assinatura dos dois.
Às 17h16, Fabiano Contarato (PT-ES), que perdeu a reeleição no Espírito Santo, parou o discurso para um recado: “E eu quero fazer um registro à minha querida Deputada Erika Hilton, ao meu querido Reginaldo.”
Eliziane Gama (PSD-MA), que disputou a reeleição pelo PT e perdeu, fez o caminho inverso. Às 17h43, disse o nome dela e não o dele: “desde o Deputado que é autor desta proposta, passando pela minha querida amiga Erika Hilton, que é uma referência nessa luta e que está agora aqui no Plenário do Senado Federal”.
Um nome só, ou nenhum
Cleitinho não foi o único a dizer só o nome dele. Às 18h58, Randolfe Rodrigues (PT-AP), que ficou a 50.091 votos da reeleição no Amapá, lembrou que aquele dia não tinha começado “com a apresentação, Deputado Reginaldo, desta proposta por V. Exa. na Câmara dos Deputados”.
Às 14h40, quem presidia a sessão, Chico Rodrigues (PSB-RR), que perdeu a reeleição em Roraima, parou antes de chamar o orador seguinte para registrar a presença do “autor originário, o Deputado Reginaldo Lopes”.
Das 15 vezes em que se disse “Reginaldo” na sessão, quatro vieram da frase oficial que anuncia a proposta, “Reginaldo Lopes e outros”. Quem presidia a sessão a leu duas vezes. Eduardo Braga (MDB-AM), reeleito como o senador mais votado do Amazonas, a repetiu no discurso. O relator, Omar Aziz (PSD-AM), que disputa o 2º turno para governador do Amazonas, a leu no parecer.
Fora de PT, MDB e PSD, 21 senadores discursaram. Nenhum disse o nome de Erika Hilton; nos discursos, só Cleitinho nomeou o autor da proposta.
A mesma conta, no PT: dos oito senadores do partido que discursaram, dois disseram o nome dela. Todos os senadores citados nesta reportagem votaram a favor da proposta.
- PT2 · 6
- PSD2 · 5
- MDB1 · 3
- PL0 · 4
- PSDB0 · 4
- Republicanos0 · 4
- PSB0 · 3
- PP0 · 2
- Avante0 · 1
- PDT0 · 1
- Podemos0 · 1
- União0 · 1
Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas da 134ª Sessão Deliberativa Ordinária, 14/10/2026. Partido como registrado nas notas, na data. Quem só presidiu a sessão não entra.
Ver dados
| Partido | Disseram “Erika Hilton” | Não disseram | Quem disse |
|---|---|---|---|
| PT | 2 | 6 | Paulo Paim, Fabiano Contarato |
| PSD | 2 | 5 | Eliziane Gama, Nelsinho Trad |
| MDB | 1 | 3 | Veneziano Vital do Rêgo |
| PL | 0 | 4 | — |
| PSDB | 0 | 4 | — |
| Republicanos | 0 | 4 | — |
| PSB | 0 | 3 | — |
| PP | 0 | 2 | — |
| Avante | 0 | 1 | — |
| PDT | 0 | 1 | — |
| Podemos | 0 | 1 | — |
| União | 0 | 1 | — |
- 14h21Quem preside a sessão anuncia a proposta, na abertura: “do Deputado Reginaldo Lopes e outros Deputados”.
- 14h40Chico Rodrigues, presidindo: “autor originário, o Deputado Reginaldo Lopes”.
- 15h07Paulo Paim: “de autoria dos Deputados Reginaldo Lopes e Erika Hilton”.
- 16h29Quem preside a sessão anuncia a proposta de novo: “de autoria do Deputado Reginaldo Lopes e outros Deputados”.
- 16h34Veneziano Vital do Rêgo: “a subscrição do nosso companheiro Deputado Reginaldo Lopes, da Deputada Erika Hilton”.
- 16h52Eduardo Braga: “assinada pelo Deputado Reginaldo Lopes e outros”.
- 17h02Paim, à deputada: “a chamada da 6x1 tem a sua digital”. Nos minutos seguintes, diz os dois nomes mais duas vezes.
- 17h16Fabiano Contarato: “à minha querida Deputada Erika Hilton, ao meu querido Reginaldo”.
- 17h43Eliziane Gama: Erika Hilton pelo nome; Reginaldo como “o Deputado que é autor desta proposta”.
- 18h58Randolfe Rodrigues, só Reginaldo: “Deputado Reginaldo, desta proposta por V. Exa.”
- 20h22Cleitinho, só Reginaldo: “a PEC é de V. Exa., a autoria é sua”.
- 20h24Nelsinho Trad: “o Mancha, como disse aqui o Governador eleito Cleitinho - e pela Deputada Erika Hilton”.
- cerca de 21h20O relator Omar Aziz, o senador encarregado de estudar a proposta, lê o relatório dele: “do Deputado Reginaldo Lopes e outros”.
- 21h45Veneziano, ao orientar a bancada: “aqui estão presentes tanto o nosso Deputado Reginaldo como a nossa Deputada Erika Hilton”.
Fonte: Senado Federal, notas taquigráficas e áudio oficial da sessão de 14/10/2026. As horas foram medidas no áudio oficial; o trecho com link abre o vídeo da transmissão no segundo da fala (antes das 14h50, o áudio do Senado). A leitura do relator não pôde ser medida ao segundo: a hora dela é aproximada.
O nome dela está em outro papel
No papel, a autoria é de Reginaldo Lopes. A proposta foi apresentada na Câmara em 11 de dezembro de 2019, e a lista de autores nos dados abertos da Câmara tem um nome: o dele.
Para começar a andar, uma proposta de emenda à Constituição apresentada por deputados precisa da assinatura de pelo menos um terço deles, como manda a própria Constituição. O “e outros” da frase oficial lida no Senado vem daí.
Em 2019, Erika Hilton ainda não era deputada federal. Foi eleita para a Câmara pela primeira vez em 2022.
O papel com o nome dela é outra proposta, a PEC 8/2025, de fevereiro de 2025, que pedia jornada de quatro dias de trabalho por semana. Erika Hilton é a primeira a assinar. Reginaldo Lopes também assina.
Em fevereiro de 2026, a Câmara juntou a proposta dela à dele, para as duas andarem juntas. Em 27 de maio, o plenário aprovou a de 2019 com um texto novo, apresentado ali mesmo por outros dois deputados, que substituiu o original. Com isso, o texto inicial dele e a proposta dela deixaram de ser votados, e a dela foi arquivada, como mandam as regras da Câmara.
Por isso, no papel que chegou ao Senado, o nome é um só. A frase de Cleitinho, “a autoria é sua”, coincide com esse registro. A de Paim, “de autoria dos Deputados Reginaldo Lopes e Erika Hilton”, junta as duas propostas.
Do apelido à votação
Nelsinho Trad juntou os dois nomes numa frase só: citou Cleitinho, repetiu o apelido que ele tinha lembrado e pôs ao lado o nome de Erika Hilton.
Às 21h45, ao orientar a bancada para a votação, Veneziano disse os dois nomes pela última vez na sessão: “aqui estão presentes tanto o nosso Deputado Reginaldo como a nossa Deputada Erika Hilton”. Naquela noite, a proposta foi aprovada nas duas votações do Senado, por 75 votos a 1 em cada uma.
No registro da Câmara, a proposta tem um nome. Nas notas taquigráficas do Senado, tem dois. Os dois registros são oficiais.
- Cleitinho (Republicanos-MG): eleito governador de Minas Gerais no 1º turno, com 55,40% dos votos válidos, mais que o dobro do segundo colocado.
- Reginaldo Lopes (PT-MG): reeleito deputado federal com 215.192 votos, o quarto mais votado de Minas.
- Erika Hilton (PSOL-SP): reeleita deputada federal com 1.596.472 votos, a segunda mais votada de São Paulo, com voto em todos os municípios do estado.
- Rick Azevedo (PSOL-RJ): eleito deputado federal com 191.371 votos, o segundo mais votado do Rio de Janeiro.
- Nelsinho Trad (PSD-MS): senador até 31 de janeiro de 2027. Foi eleito primeiro suplente (quem assume se o titular sair) de Reinaldo Azambuja (PL), o mais votado para o Senado em Mato Grosso do Sul.
- Paulo Paim (PT-RS): senador desde 2003; não disputou a eleição e deixa a cadeira em 31 de janeiro de 2027.
- Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB): reeleito senador na segunda vaga da Paraíba, 79.152 votos à frente do terceiro colocado.
- Fabiano Contarato (PT-ES): eleito em 2018 pela Rede; em 2026, pelo PT, ficou em quarto no Espírito Santo, com 12,94% dos votos válidos.
- Eliziane Gama (PSD-MA, como a registra o Senado): disputou pelo PT e ficou em quinto no Maranhão, com 9,78% dos votos válidos.
- Randolfe Rodrigues (PT-AP): terceiro colocado no Amapá, a 50.091 votos da segunda vaga.
- Chico Rodrigues (PSB-RR): quarto entre os 13 candidatos ao Senado em Roraima, com 13,56% dos votos válidos.
- Eduardo Braga (MDB-AM): reeleito como o senador mais votado do Amazonas, com 32,29% dos votos válidos.
- Omar Aziz (PSD-AM): teve 40,63% dos votos válidos no 1º turno para governador do Amazonas e disputa o 2º turno.
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), arquivo final da votação por candidato e cadastro de candidatos de 2018, 2022 e 2026; mandato de Paulo Paim: Senado Federal.
Como fizemos
Falas: notas taquigráficas do Senado, o registro oficial palavra por palavra, da sessão de 14 de outubro de 2026. Contamos cada “Erika Hilton” (10 vezes) e cada “Reginaldo” (15) na fala de cada orador. O partido é o que o Senado registra na data. Na conta por partido entra quem discursou; quem só presidiu a sessão, não.
Horas: medidas no áudio oficial de cada trecho, que o Senado publica. Os links abrem o vídeo da sessão no segundo da fala.
Votos no Senado: dados abertos do Senado. Autoria e caminho das propostas: dados abertos da Câmara. Urnas: arquivo final do Tribunal Superior Eleitoral, 1º turno, só votos válidos.
Cada trecho entre aspas foi conferido letra por letra no registro oficial. Não procuramos os citados.
O que este número não diz
A conta é de nomes ditos na tribuna, como as notas os registram: não mede aplauso, gesto, faixa nas galerias nem conversa fora do microfone. “Todos de PT, MDB e PSD” vale para os 40 oradores daquela sessão, não para quem não discursou. A autoria no papel é o registro da proposta na Câmara; quem assinou o texto final aprovado, apresentado no plenário da Câmara, não entra nesta conta. Os resultados de urna são do 1º turno; Omar Aziz ainda disputa o 2º turno para governador. O partido de Eliziane Gama difere entre as duas fontes oficiais: o Senado a registra no PSD; o TSE, candidata pelo PT.
Fontes
- Senado — notas taquigráficas da sessão de 14/10/2026
- Senado — áudio oficial: Cleitinho, 20h22
- Senado — áudio oficial: Nelsinho Trad, 20h24
- Vídeo da sessão (YouTube, sinal da TV Senado), na fala de Cleitinho
- Senado — votações de 14/10/2026
- Câmara — PEC 221/2019, a proposta de Reginaldo Lopes
- Câmara — PEC 8/2025, a proposta de Erika Hilton
- TSE — votação por candidato, eleições de 2026
- TSE — candidaturas de 2026
- Constituição Federal, art. 60
- letramento.org/eleicoes — os senadores eleitos em 2018 nas urnas de 2026 (abre em nova aba)
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